Treinamos as máquinas com sabedoria. E as empresas?

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Os laboratórios de inteligência artificial descobriram que não se programa julgamento moral sem alguém que já o tenha. Resta saber se as empresas ainda formam esse alguém.

Em 24 de junho de 2026, a The Economist dedicou sua seção de ciência e tecnologia a uma pergunta que há dez anos não teria ocupado uma linha: por que os grandes laboratórios de inteligência artificial estão contratando tantos filósofos? O título do texto na versão impressa da revista, Computo, ergo sum (“Computo, logo existo”), faz uma referência à famosa máxima cartesiana, mas o foco da reportagem não são as ideias claras e distintas: o artigo é, na verdade, bastante prático e trata de mercado, vagas, salários e disputa por talento. Descreve uma mudança de rota na indústria que menos parecia precisar dela, e faz com que outras empresas, que cada vez mais inserem a IA em suas operações, tenham de refletir sobre os princípios que guiam essas ferramentas.

A novidade do conhecimento antigo

Há uma década, antes da revolução dos agentes de IA, dizia-se aos estudantes de artes e humanidades que aprendessem a programar, se quisessem bons empregos. Hoje, como mostra a reportagem, são os programadores que andam nervosos. Números do Federal Reserve de Nova York indicam que, em 2024, 7% dos formados em ciência da computação estavam desempregados, contra 5,1% dos formados em filosofia. O filósofo Luciano Floridi, professor da Universidade Yale, conta que os estudantes recebem propostas ainda antes de se formarem e que os professores têm saído das universidades rumo às empresas de IA numa velocidade impressionante.

O que está por trás dessa demanda? A ciência moderna cresceu sobre uma premissa poderosa, a de que, para conhecer algo, convém dividi-lo em partes, simplificá-lo e reduzir os fatores em jogo. O método funciona com o que é redutível, e é exatamente isso que a IA não encontra quando o assunto é humano e não pode ser decomposto em compartimentos estanques. Foi nesse ponto que a indústria foi buscar quem estivesse treinado a lidar com o irredutível.

O primeiro problema que os laboratórios de IA encontraram foi a bajulação. Modelos de linguagem tendem a agradar, a concordar, a ajustar a resposta ao que parece que o interlocutor quer ouvir, o que acaba deixando a verdade de lado. E, curiosamente, o remédio para esse defeito foi encontrado em alguns dos textos mais antigos da humanidade: o método socrático. Tal como Platão o descreve, ele consiste perguntar em sequência até que os sentidos se esclareçam, as contradições apareçam e as consequências fiquem visíveis.

Ao lado dele vem a ignorância socrática. Na Apologia, Sócrates afirma que sua sabedoria consiste sobretudo em ter consciência do quanto não sabe, e é essa humildade que os engenheiros tentam implantar para conter o excesso de confiança dos modelos.

Há um limite, porém, nessa transposição. A IA executa, e executa bem. Só que executar supõe uma finalidade que ela não fornece. Enquanto o “como fazer” ocupava o dia inteiro, dava para adiar o “para quê”, que os gregos chamavam de télos. Agora que a máquina faz, sobra a pergunta. E não são poucos os que descobrem, ao chegar nela, que não tinham a resposta.

Empresas treinadas como modelos de IA

Como reporta a The Economist, há toda uma preocupação com os valores por trás do treinamento dos modelos de IA, com algumas empresas adotando constituições para eles. Há um esforço consciente dos laboratórios em injetar nos modelos algo da sabedoria humana acumulada por séculos. Será que é possível dizer o mesmo das empresas?

Se enxergamos uma organização também como um sistema treinado, concluímos que seu treinamento são os processos, políticas, metas, indicadores e compliance. Depois de definidos, ela tem de funcionar perfeitamente com eles, e para isso existem diversas plataformas para garantir a produtividade. Mas para quê?

Já observamos aqui que as palavras “ética” e “moral” vêm sendo substituídas pelo compliance, com suas normas que não vêm do ser, que ninguém cumpre para ficar melhor nem sai cumprindo com a sensação de ter melhorado. São itens de um checklist. O professor Rafael Ruiz comparou quem vive assim aos Nazgûl, os espectros do Anel de Tolkien: figuras que parecem, mas não são, que não têm vontade própria e se movem pela vontade alheia, e que de tanto fazer acabam se esvaziando por dentro.

Nesse contexto, a questão que hoje fazemos aos modelos, portanto, é a mesma que a empresa deveria estar fazendo a si mesma há muito tempo. Isso que nos guia é sabedoria, ou é apenas regra bem escrita?

Quem escolhe os valores?

Todo valor instalado em um agente de IA foi colocado ali por alguém. E toda política corporativa foi escrita por alguém que, em algum momento, precisou julgar sem ter a quem recorrer. E se perguntarmos quem prepara essa pessoa, a resposta não pode ser mais uma regra, sob pena de a cadeia não terminar nunca. Entretanto, ela não foi configurada, mas formada, talvez pelas pressões do ambiente e a necessidade de resultados.

Quando o trabalho se reduz a entregas repetíveis e mensuráveis, as máquinas levarão vantagem sempre. O que permanece humano e insubstituível é julgar, aprender, assumir responsabilidade e fazer o bem quando ninguém está olhando.

William Deresiewicz escreveu que a crise de liderança do nosso tempo vem de formarmos os maiores tecnocratas que o mundo já viu, gente excelente na própria especialidade e sem interesse por nada além dela. Faltam líderes capazes de formular perguntas, e não apenas de respondê-las; de determinar objetivos, e não apenas de cumpri-los; de ponderar se vale a pena fazer algo, e não apenas como fazê-lo. É essa a competência que os laboratórios de IA estão contratando a peso de ouro, e ela não se compra pronta: forma-se lendo, discutindo, expondo o próprio critério e revendo-o, que é o trabalho que a boa literatura faz conosco quando se recusa a amenizar o sofrimento e prefere nos provocar.

A máquina terá os valores que lhe dermos, assim como as empresas adotam os valores dos seus líderes. As questões que se impõem a ambos são as mesmas: de onde vêm esses valores e quais suas consequências? Serão valores que farão as pessoas florescerem e buscarem a verdade ou que as empurrarão para a bajulação e a quantificação da vida?

Quer aprofundar? O programa Ética & Literatura do ISE Humanidades conduz leituras guiadas de clássicos que iluminam dilemas atuais da liderança. A próxima obra é Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende, na modalidade Jornada de Leitura, com início das discussões em 29 de agosto de 2026.

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