A leitura sempre aparece nas listas de hábitos das pessoas de sucesso. Seu efeito mais valioso, porém, não está no que ela rende, e sim em quem ela forma.
É muito comum encontrarmos listas com os hábitos das “pessoas bem-sucedidas” em publicações voltadas para negócios. Ainda mais comum, é encontrarmos nessas listas a prática da leitura. Lá está ela, por exemplo, em uma reportagem recente da Business Insider, feita a partir de entrevistas com altos executivos e em uma pesquisa do JPMorgan com mais de cem bilionários. Tudo indica que ler é um diferencial poderoso para quem quer atingir grandes metas.
Curiosamente, porém, nem a frequência das listas nem a presença fixa dos livros nelas parece ser capaz de atrair mais pessoas à prática da leitura, ainda menos nos ambientes corporativos. Uma matéria publicada emOEstado de São Paulo no último dia 21 de julho lamenta precisamente o declínio desse hábito, registrando que a leitura por prazer caiu cerca de 40% em duas décadas, e que são justamente os mais jovens os que menos leem.
Seria fácil transformar o dado em mais uma censura àgeração Z, frequentemente vista como desmotivada. Entretanto, o desinteresse dos jovens pela leitura talvez não seja um desinteresse pelo sucesso, mas pela cultura daperformance.
Ler para performar
Em um de seus artigos, Dante Gallian, professor convidado do ISE Humanidades, batizou o fenômeno de “ler para ter sucesso” demoda da leitura performática. Trata-se do ato de ler segundo a mesma lógica que o trabalho, com metas, números, checklists (como os famosos 100 livros para ler antes de morrer), técnicas de leitura rápida, cálculo de páginas diárias e assim por diante. O importante é acumular números que possam depois ser usados como símbolo de status, inclusive em ambientes corporativos.
O problema desse enquadramento é que ele não apenas condena a leitura a uma corrida que ela sempre perde como também a faz perder seu verdadeiro sentido.
O mundo moderno tende a reduzir a pessoa a um ser talhado para fazer, produzir e ser eficaz, sem demasiada atenção aos outros aspectos da vida. Por décadas, as empresas têm implementado políticas, dashboards e processos para garantir a produtividade ideal de acordo com padrões rígidos. Agora, testemunhamos o estágio final desse ideal, com muitos enxergando nainteligência artificial o colaborador ideal. E, de fato, a IA nem sempre produz melhor do que uma pessoa, mas certamente produz mais, mesmo quando o assunto é leitura. Aliás, o próprio processo de treinar um modelo de IA consiste em alimentá-lo com bilhões de textos (inclusive livros) para que ele possa “entregar” resultados melhores.
Vista assim, a leitura perde o sentido, e uma geração criada nessa lógica faz esse cálculo bem depressa. Ela não perdeu o gosto pela leitura, mas pela vida reduzida à performance.
Ler para formar-se
Uma pessoa é muito mais que uma máquina. É um feixe de relações, alguém que se constrói afetando e sendo afetado, com um centro que dá unidade e propósito ao que os sentidos e a razão captam em separado. O ser humano pensa, trabalha, sente, lembra-se, ama, sofre…, e muitas vezes tem dificuldade para organizar todas essas experiências, sobretudo sob a pressão de abafar essas dimensões da sua existência a fim deprofissionalizar a vida.
As grandes obras da literatura ajudam precisamente a dar conta disso. Por meio delas, o leitor entra em contato com a própria humanidade, inteira. Como diznosso professor convidado Rafael Ruiz: “a literatura é o laboratório onde aprendemos não só o que é o ser humano mas como é que é ser humano”. Ela não acrescenta uma linha ao currículo, mas forma quem lê.
Uma estudante deHarvard lamentava o fato de seus colegas evitarem textos longos e passá-los a um chatbot. Em sua defesa da ficção, dizia que é nos grandes livros que se dá o encontro deliberado com a ambiguidade moral, algo que toca a vida inteira do leitor, e não apenas a parte de si que ele reserva para o trabalho.
Uma máquina devolve o enredo deOs Irmãos Karamázov em segundos, e com precisão. O que ela não devolve é a travessia de quem passou centenas de páginas na companhia de Aliócha e Ivan e saiu delas um pouco diferente. Como lembra Gallian, dificilmente seremos cobrados, no fim, por quantos livros lemos, e sim por como os lemos, e se eles nos fizeram melhores conosco e com os outros.
Talvez tornar a leitura mais uma vez um hábito atraente signifique ir contra a corrente e encarar os livroscomo uma habitação em que se entra sem pressa, em que se demora numa frase e às vezes numa palavra, sem correr para a página seguinte para cumprir alguma meta.
Assim, a pergunta, então, não é quantos livros a nova geração lê e a resposta não é condená-la como desinteressada. As perguntas que todos – de todas as idades e mesmo os líderes que figuram nas listas de pessoas bem-sucedidas – podem fazer-se são: “Para que ler num mundo em que a máquina resume, recomenda e, no limite, escreve por nós?” ou “Por que eu queria ler tantos livros tão rápido?”.
A resposta talvez esteja em ler para formar-se. Ler para apurar a atenção, os critérios, a sensibilidade e o discernimento daquilo que é propriamente humano e máquina nenhuma reproduz. Ler para enriquecer-se com a sabedoria acumulada pela humanidade ao longo da sua jornada, mas sem pressa.
Quer aprofundar? O programa Ética & Literatura do ISE Humanidades conduz leituras guiadas de clássicos que iluminam dilemas atuais da liderança. A próxima obra é Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende, na modalidade Jornada de Leitura, com início das discussões em 29 de agosto de 2026.


