Em 1926, um homem atropelado por um bonde em Barcelona foi confundido com um mendigo pelos transeuntes. Era Antoni Gaudí i Cornet. Em 10 de junho de 2026, completaram-se 100 anos da morte do arquiteto catalão.
Gênio, criativo, original. O arquiteto da Sagrada Família, da Casa Batlló, da Casa Milà e de tantas outras construções únicas entrou para a história em função de obras que tinham as formas da natureza como grande inspiração.
Para além de suas obras, Gaudí entrou para a história pela pessoa que foi. Fora um grande arquiteto, sem dúvida. E muitos o consideram também um modelo de cristão. Acima de cada obra, mesmo que fosse uma residência familiar, fazia questão de colocar uma cruz. Gaudí morreu com tamanha fama de santidade que atualmente sua vida está sendo investigada pela Igreja Católica. Já foi declarado Venerável – reconhecimento de que ele viveu de maneira virtuosa.
Sem dúvida, suas obras são impressionantes e há um grande mérito no trabalho de alguém que consegue, mesmo após 100 anos de sua morte, que seu grande projeto, a Sagrada Família, siga sendo construído seguindo sua visão. Mas como era o Gaudí no dia a dia? Como era enquanto líder esse homem cuja simplicidade e desprendimento com que se vestia fez com que fosse confundido com um mendigo?
Para responder a essa pergunta, compartilho algumas anedotas de sua vida que nos dão algumas pistas de como Gaudí exercia sua liderança e frases que nos ajudam a entender sua visão de mundo. A meu ver, essas histórias revelam três dimensões de sua liderança: justiça, cuidado e serviço.
Gaudí tinha plena consciência de que morreria sem ver a Sagrada Família concluída. Diante disso, atuou com visão de longo prazo. Agia com uma serenidade que se apoiava em uma convicção: “Meu cliente não tem pressa”.
Ele também dizia: “Não há razão para lamentar que eu não possa terminar a igreja [se referindo à Sagrada Família]. Eu envelhecerei e partirei, mas a vida dela deve depender das gerações a quem ela for transmitida.”
Com isso em mente, Gaudí procurou transmitir sua visão ao passo que deixou, intencionalmente, espaço para a criatividade de seus sucessores: “A contribuição de diferentes gerações com diferentes estilos que competem em esplendor será a melhor homenagem à Igreja. Quantas catedrais não têm sua fachada marcada pela passagem dos séculos!”
Gaudí não via a Sagrada Família como um projeto de autopromoção. Obteve certo reconhecimento, especialmente entre jovens arquitetos de seu tempo. Entretanto, sempre conduzia o foco das conversas para o que se tornou o projeto de sua vida, não para ele mesmo.
“O trabalho de um só homem é forçosamente frágil e morto desde o momento em que nasce.” Essa frase ajuda a entender como Gaudí considerava essencial a colaboração para o sucesso do projeto. E ele via que no seu projeto essa colaboração deveria ocorrer inclusive entre gerações distintas. Por isso, atua como lhe corresponde quando transmite critérios, forma pessoas, oferece suporte e dá autonomia para que seus sucessores contribuam para a continuidade do projeto.
Mesmo orientado a uma visão de longo prazo, Gaudí se envolvia no dia-a-dia das obras e estava sempre entre os trabalhadores. É interessante ver o modo como Gaudí lidava com as pessoas no cotidiano.
Como não existia lei de aposentadoria, quando os trabalhadores atingiam a idade avançada, eram designados para trabalhos fáceis e menos pesados, como acender as lanternas, buscar água com os jarros, preparar coques de cânhamo para os moldes de gesso, entre outros.
Esses velhos eram dois, Pau, que já passava dos setenta anos, e outro trabalhador. Sentavam-se ao lado da pilha de cânhamo e dividiam os coques em pequenas frações. De vez em quando, dormiam um pouco, ouvindo os roncos suaves um do outro.
Durante uma dessas sonecas tranquilas, o arquiteto apareceu. Vendo que ele se aproximava, o modelista mais próximo os despertou para que não fossem vistos naquela situação comprometedora.
Mas Gaudí passou como se não os tivesse visto e disse depois para o supervisor deles:
“Eles são idosos e percorreram um longo caminho no templo; não os perturbem e os deixem descansar… Um dia chegará a nossa vez!”
Gaudí não olhava apenas para a produtividade imediata. Via a história daqueles homens. Via o caminho percorrido no templo. Via que a justiça não se esgota no cálculo do rendimento atual, mas inclui gratidão, memória e reconhecimento.
“Um dia chegará a nossa vez.” A frase é simples, mas muda o olhar. O trabalhador idoso é que já serviu, que já contribuiu, que já carregou parte da obra e que agora deve ter sua forma de contribuir ajustada às suas circunstâncias e capacidades.
Há, porém, outra anedota que mostra que Gaudí não era permissivo como pode parecer.
Um assistente de modelista adoeceu e ficou algumas semanas sem ir trabalhar. Como era costume na Sagrada Família, durante esse tempo seu salário era pago como se tivesse trabalhado. Quando o médico deu alta, dirigiu-se ao templo, não para assumir o cargo, mas para receber o salário aos sábados e pedir aos colegas que lhe dessem uma caixinha habitual para cobrir as despesas de sua doença, com o que todos concordaram benevolentemente.
Mas, por um relato particular do médico, soube-se que ele havia sofrido apenas um resfriado e que, portanto, estava totalmente apto para trabalhar. No sábado seguinte, voltou a recolher e a pedir novamente aos colegas o complemento que o ambiente cristão daquele local de trabalho normalizava nesses casos. Não houve escolha senão informar Gaudí.
“Vem até o ateliê”, disse ele. “Eu tenho de falar contigo.”
Uma vez ele lá, falou:
E, quase tocando o nariz com o dedo indicador, acrescentou:
“A tolerância chegou ao limite! Deves saber que aqui não retornarás.”
O recado foi dado. Para aquele trabalhador e para os demais. Gaudí não se omitiria e não permitiria injustiças.
A mesma comunidade que se organizava para proteger um trabalhador doente não podia aceitar que alguém explorasse a bondade dos demais. A benevolência deve ultrapassar, mas não deve prescindir da justiça. Essa fraude não feria apenas uma regra abstrata; prejudicava concretamente os colegas, suas famílias e a confiança que sustentava aquela comunidade de pessoas.
Essa é uma lição especialmente atual. Muitos ambientes perdem força porque confundem compreensão com ausência de critérios. Gaudí parece mostrar o contrário: é possível cuidar das pessoas e, justamente por isso, não permitir que se abuse da benevolência dos colegas de trabalho.
Se, ao verificar as maquetes, fosse descoberto um erro de interpretação, Gaudí evitava falar de modo que pudesse ser mal recebido: “não fizeste isso bem”. Em vez disso, dizia:
“Isso não foi exatamente o que eu te disse.”
Ou então:
“Nós não nos entendemos direito!”
E acrescentava imediatamente:
“Vamos tentar fazer novamente!”
Aqui aparece uma dimensão muito concreta de cuidado.
Gaudí não deixava de corrigir. Não fingia que o erro não existia. Não sacrificava a obra para evitar uma conversa difícil. O “como” aqui é chave. Corrigia preservando a pessoa e, ao mesmo tempo, preservando o grau de exigência que a obra precisava ter.
Gaudí parecia compreender que uma obra bem feita exige aprendizagem, e que aprender supõe poder errar sem ser destruído após um erro.
Há uma história que ajuda a ver como Gaudí buscava equilibrar justiça e cuidado.
Um dia, Gaudí percebeu que um escultor não estava seguindo suas instruções e perguntou se ele havia entendido bem.
“É que esta noite”, confessou o escultor, “dormi poucas horas.”
Gaudí respondeu:
“Pois bem, a primeira coisa que deves fazer, quando o corpo precisa, é descansar, para fazer um bom trabalho! Vai para casa e dorme o suficiente.”
O escultor respondeu:
“Sim, senhor. Farei isso assim que sair do trabalho.”
Gaudí insistiu:
“Não! Não deves esperar até mais tarde. É agora que deves ir recuperar-te!”
O escultor não teve escolha senão trocar de roupa e sair da oficina. Gaudí deduziu essas horas de seu salário.
“O tempo que lhe restava para terminar a jornada não lhe teria sido útil” explicou aos demais escultores.
Gaudí leva a sério a necessidade de descanso. Não trata o trabalhador como uma máquina nem considera virtuoso trabalhar de qualquer modo, mesmo sem estar em condições. Para fazer um bom trabalho, era preciso descansar.
Ao mesmo tempo, ele deduz as horas não trabalhadas. Sua forma de atuar pode parecer paradoxal se lembramos da história dos dois trabalhadores idosos que por vezes cochilavam. O que me chama atenção é que Gaudí não tinha receio de tratar de modo diferente quem ele acreditava que estava em circunstâncias e tinha capacidades diferentes. Escolhe deduzir aquelas horas porque via que era um modo proporcional e adequado de atuar com aquele trabalhador.
Para Gaudí, descanso e trabalho não são realidades opostas, mas complementares: “a primeira coisa que deves fazer, quando o corpo precisa, é descansar, para fazer um bom trabalho.” Descanso era entendido como algo essencial para se trabalhar bem.
A liderança de Gaudí também aparece na atenção às características e aptidões de cada pessoa. Sua intervenção nos trabalhos do templo o colocava necessariamente em contato com todo o pessoal – e ele gostava de estar sempre próximo dos trabalhadores.
Ao distribuir tarefas, dizia:
“Isso pode ser feito pelo Joseph, que tem paciência.”
Ou:
“Deixa o Andreu fazer, ele é mais alto e vai ser fácil para ele.”
São observações simples, mas revelam uma forma de liderar. Gaudí conhecia as pessoas. Percebia a paciência de um, a altura de outro – e a disposição e interesse de cada um para determinada tarefa.
Era capaz de identificar o que cada um pode fazer melhor, onde pode contribuir mais e em que precisa ser ajudado. Há uma justiça própria em dar a cada um uma tarefa adequada, e há um cuidado próprio em não ignorar as circunstâncias concretas de cada pessoa.
“Para fazer bem as coisas, primeiro vem o amor e depois a técnica.”
Gaudí não desprezava a técnica. Seria absurdo pensar isso em quem era conhecido por ser detalhista e exigente. Além disso, sua obra mostra precisamente o contrário. Mas a técnica, sozinha, não basta para explicar uma obra como a Sagrada Família. Antes dela, há um amor que dá direção, sentido e unidade ao trabalho.
Esse amor se concretiza em Gaudí como serviço a Deus, serviço à Igreja, serviço à obra e também serviço às pessoas concretas que participavam da construção.
Gaudí também dizia: “É necessário alternar entre reflexão e ação, que completam e moderam uma à outra.” Esse equilíbrio fica plasmado em uma característica de suas inovações: tinham clara implicação prática e contribuição para o propósito da edificação — mais luz, mais harmonia, mais conforto térmico para o ambiente construído.
Gaudí inspirava e convidava operários, artesãos e doadores a se tornarem parceiros genuínos de um esforço compartilhado, gerando um senso de propósito que engajava e movia o coração dos envolvidos.
Austero, especialmente em seus últimos anos, buscava viver uma vida sacrificada: “É preciso comer, dormir e vestir apenas o necessário. É bom para o corpo e para a alma passar frio no inverno e calor no verão.”
Essa austeridade ajuda a compreender um outro aspecto de sua liderança. Gaudí não pedia aos demais uma dedicação que ele próprio não buscasse viver. Não conduzia a obra apenas a partir de uma posição de comando, mas a partir de uma vida pessoal ordenada a um fim.
Justiça, cuidado e serviço aparecem como dimensões presentes nessas pequenas histórias. Justiça, quando impede que alguém abuse da bondade dos colegas, mas também quando desconta as horas não trabalhadas. Cuidado, quando corrige com delicadeza e quando manda descansar quem não tem condições de trabalhar bem. Serviço, quando entende que a Sagrada Família não deveria depender dele, mas atravessar gerações, quando desloca o foco de si para a obra e coloca sua técnica e criatividade a serviço de algo maior.
Gaudí não deixou apenas uma catedral. Deixou um exemplo de liderança humanista. Que essas pequenas anedotas e frases de Gaudí nos inspirem a ser melhores líderes!

