Novos desafios para os Conselhos de Administração

Por Paulo Conte Vasconcellos*

Neste artigo, elaboro sobre o alinhamento entre Estratégia e Inovação, analisando como novas tecnologias afetam o ambiente de negócios e representam novos desafios para os Conselhos de Administração.

Recentemente me deparei com um site inusitado. Um algoritmo utilizando IA-Inteligência Artificial, cria pessoas que simplesmente não existem. As fotos são perfeitas! Em tempos de compartilhamentos e fake news é assustador!

Em maio de 2017, Ke Jie, campeão chinês de Go, o jogo de tabuleiro mais popular na China, enfrentou e perdeu para um software criado com Inteligência Artificial pela empresa britânica Alphago (adquirida pelo Google). Mais importante do que a comoção gerada, foi o anúncio do governo chinês, menos de dois meses após a disputa, de um plano para desenvolver estruturas de IA. A China quer ser um Centro Global de Inovação em IA até 2030. O país já dispõe dos pré-requisitos para isto: volume enorme de dados, capacidade de computação e bons engenheiros de algoritmos de IA. “Em 50 anos, IA vai substituir de 40 a 50% dos empregos nos Estados Unidos”. Esta previsão é de Kai-Fu Lee no seu excelente livro AI Super Powers – China, Sillicon Valley and the New World Order.

IA é apenas uma das novas tecnologias sobre as quais os (as) conselheiros(as) precisam adquirir conhecimentos. A lista inclui blockchain, machine learning, IOT, big data, entre outras. Já se foi o tempo em que era suficiente entender de gestão, finanças, gestão de pessoas e riscos e controles.

Muitas vezes, ao levar estes assuntos para as empresas onde atuam, os(as) conselheiros(as) recebem uma resposta NinBy (not in my backyard). Numa tradução livre: não nos afeta. A tendência de achar que as mudanças demorarão a acontecer e afetarão somente outros setores e empresas. Quando este pensamento acontece, o risco de futuros problemas é altíssimo.

A NACD – National Association of Corporate Directors, em seu recente relatório Fit for the Future, destaca oito Mega Tendências que estão impactando os negócios hoje:

1) reinvenção de setores e modelos de negócios

2) transformações demográficas e na força de trabalho

3) mudanças exponenciais na tecnologia digital

4) crescente instabilidade geopolítica

5) expectativas mais altas e ativismo de investidores

6) mudanças climáticas

7) hiper-transparência gerada pelas mídias sociais

8) crescente ativismo social.

Cabe aos Conselhos de Administração provocarem o debate sobre o impacto destas tendências nas suas organizações.

É fundamental uma reflexão sobre como está o nosso ambiente de negócios e, mais importante, qual o seu futuro? Três perguntas são essenciais nesta reflexão:

✓ Nós temos um bom entendimento do que será o mundo amanhã?

✓ Quanto tempo nós temos dedicado para pensarmos juntos o futuro dos nossos negócios?

✓ Estamos preparados para enfrentar um ambiente de negócios muito diferente?

Se o Conselho de Administração não tiver uma resposta adequada para estes questionamentos, acende-se um sinal de alerta.

Na hora de liderar uma Transformação Digital, o Conselho de Administração deve considerar cinco princípios básicos*:

✓ Considerar tecnologias emergentes como um imperativo estratégico

✓ Adequar a estrutura e composição do Conselho

✓ Avaliar as lideranças, talentos e cultura

✓ Criar treinamentos e metas de desenvolvimento ligadas às novas tecnologias

✓ Demandar relatórios prospectivos sobre iniciativas tecnológicas

Como conselheiro independente, normalmente o primeiro passo para inovar e implementar uma transformação digital é conscientizar os tomadores de decisão, sejam sócios, conselheiros ou executivos. É questão de sobrevivência considerar Inovação um imperativo estratégico.

Após a conscientização, é preciso avaliar se o Conselho tem a estrutura adequada (pode ser criado um Comitê) e conselheiros com perfis necessários para liderarem a transformação.

Normalmente, uma nova cultura é necessária. As lideranças e os talentos precisam estar alinhados com esta nova estratégia/cultura. Substituições são comuns neste momento. Não se muda a Cultura Organizacional rapidamente. O investimento em treinamentos educativos é fundamental. Além disso, com a velocidade de mudanças no ambiente de negócios, o Conselho precisa cada vez mais demandar relatórios prospectivos. Se ficar dedicando muito tempo para analisar o passado, perderá o vôo (antigamente era bonde!).

O papel do Conselho na Inovação envolve definir o tipo de Inovação desejada: incremental ou disruptiva. Ou seja, algo para promover melhorias em produtos, serviços e processos, ou como definido por Clayton Christensen, lançar um produto, serviço ou modelo de negócio que cria um novo mercado e/ou desestabiliza os concorrentes que antes o dominavam.

Cabe também ao Conselho, definir a alocação de recursos. É comum o dilema entre investir em Inovação, que tende a trazer frutos no médio e longo prazo, ou atender a demanda dos sócios e distribuir dividendos. Outra decisão diz respeito a investir em novos negócios versus investir no core business. Como garantir o futuro sem descuidar do presente?

O Conselho deve assegurar que sejam criados incentivos para recompensar a atitude de empreendedorismo e a tomada de riscos. Finalmente, o Conselho não pode deixar de monitorar a implementação da nova estratégia.

Conclui-se que, para cumprir bem a missão de criar valor e proteger a organização, os(as) conselheiros(as) devem adquirir novos conhecimentos demandados pelo ambiente de negócios atual e futuro. Inovar não é simples e envolve riscos. No entanto, o maior risco é não inovar.

* Fonte: Adaptado de GOVERNING DIGITAL TRANSFORMATION AND EMERGING TECHNOLOGIES – A PRACTICAL GUIDE – Friso Van der Oord, Stessy Mezeu, National Association of Corporate Directors Leslie Chacko, Rachel Lam, Marsh & McLennan Insights

Publicado no Linkedin em 12/10/2019

Paulo Conte Vasconcellos é Conselheiro da Serra Azul Water Park e da Viacerta Financiadora e nosso convidado para a série de painéis, Governança em Debate

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