Como os dirigentes de grandes empresas lidam com a Transformação Digital?

A pergunta do título é uma das questões que nossa pesquisa tem investigado. Em conjunto com pesquisadores de escolas parceiras do ISE Business School no Peru, em Portugal e no Uruguai estamos realizando no Brasil um levantamento sobre o fenômeno da transformação digital dentro das organizações.

Continuamos recebendo respostas – e você é nosso convidado a participar -, mas os dados levantados até aqui já nos permitem algumas análises.

Nosso objetivo é entender como as empresas têm lidado com o fenômeno da transformação digital, desde o seu completo entendimento, conhecimento necessário e práticas envolvidas na decisão e implementação da mudança. Queremos entender porque algumas empresas estão tendo sucesso nessa empreitada e, ainda, ajudar as que ainda não encontraram seu caminho nessa jornada de adaptação.

Inicialmente, tenho que esclarecer que o fato de sermos uma escola de Direção Geral, e essa ser nossa principal base de respondentes, gera um olhar bem específico sobre o que está acontecendo dentro das empresas.

Mais de 55% dos respondentes ocupam cargos de direção, seja esta de responsabilidade funcional ou geral, dentro das suas organizações.

Nossos respondentes trabalham em corporações consideradas grandes, com mais de R$ 500 milhões de faturamento (56%) e com mais de 3 mil funcionários (46%). Portanto, este recorte descreve como grandes executivos, de grandes empresas, encaram a transformação digital dentro de suas companhias e setores.

Que palavras você associa com a expressão “Transformação Digital”?

Pare um pouco a leitura e reflita sobre o que isso realmente significa para você. Em sala de aula, como professor de Inovação e Direção Geral, costumo perguntar para os participantes de nossos programas de educação executiva: “O que está sendo mudado quando falamos de transformação digital?” e, juntos, descobrimos que a mudança envolve muitos tópicos e atores.

Na pesquisa, reproduzimos essa pergunta e, entre os mais citados, como era de se esperar, apareceram os temas: tecnologia, inovação, mudança, produtividade, processos e clientes. A surpresa foi que os respondentes usaram mais de 260 palavras diferentes para descrever o conceito.

Por curiosidade, e aproveitando um tema da moda, pedi ao Chat GPT para “Definir o que significa a transformação digital em uma organização”. A resposta que obtive foi:

“Transformação digital é o processo de usar tecnologia para aprimorar e modernizar as operações internas da organização, bem como sua interação com clientes externos. Esta transformação requer mudança na infraestrutura, nas plataformas digitais e nos processos internos. A transformação digital também pode se referir às novas formas de pensamento que a empresa adota para atender melhor às necessidades dos consumidores.”

 

Inteligências naturais e artificiais parecem concordar que o termo envolve muito mais que tecnologia.

Para 89% dos respondentes essa transformação é muito (38%) ou muitíssimo (51%) importante para suas organizações, e essa importância está ligada à geração de valor para os clientes (31,9%), adaptação da estratégia e modelo de negócio (25,7%) e ganhar eficiência por meio da otimização de processos (23,9%).
Nesse sentido, essas grandes organizações têm aplicado a transformação digital nas áreas de operações (79,6%), comercial (76,1%) e marketing (63,7%). Por outro lado, áreas ligadas à sustentabilidade social (8,8%) e meio ambiente (12,4%), tão em foco por conta das demandas ESG, ainda estão longe do movimento de transformação.

Acreditamos que a preocupação com retornos de curto prazo, que justifiquem novos investimentos em períodos de crise e incerteza, sejam os motivadores para a aplicação em áreas com maior efeito imediato nos resultados.

Apesar da importância do tema para o negócio, 46% dos pesquisados ainda se autoavaliaram com um conhecimento de médio para baixo no tocante às tecnologias digitais. Nos chama a atenção esse baixo nível de conhecimento para algo tão prioritário na opinião dos próprios executivos.

Será que os executivos conseguiram implementar uma mudança que ainda não entenderam completamente?

Entre as tecnologias mais dominadas pelos respondentes estão: mobile, redes sociais e usos de dados. Entre as citadas como menos conhecidas, além das que são mais específicas de alguns setores, tais como robôs, drones e impressão 3D, obervamos a falta de conhecimento sobre blockchain, que teve nos últimos tempos uma grande expectativa pela utilização de bancos de dados distribuídos e contratos inteligentes.

Faz tempo que os dados são identificados como “o novo petróleo da economia”, mas entre nossos respondentes é notável a baixa utilização dos dados disponíveis em suas organizações.

Mais de 70% dos respondentes concordam que utilizam mal os dados que já têm. Paradoxalmente, mais de 25% dos respondentes admitem a utilização de ferramentas sofisticadas para a análise de dados, incluindo softwares especializados para a visualização e análise de dados, tais como Power BI, Tableau e Qlik Sense.

Quando investigamos a satisfação com o progresso e as conquistas da transformação digital na sua organização encontramos praticamente um empate técnico entre satisfeitos e insatisfeitos, resultando em uma média ponderada geral de 5,52 em uma escala de 1 a 10.

Praticamente confirmando um meme famoso que atribuía à pandemia da COVID-19 o avanço do processo de transformação digital dentro das empresas, 55,7% dos nossos entrevistados relataram que estão nesse processo de transformação há menos de três anos, coincidindo com o período da pandemia.

Eles listaram como impulsionadores para esse avanço: a liderança da alta administração (61,7%), a COVID-19 (42,6%) e as mudanças na indústria (41,5%) ou nos clientes (36,2%).

Um dado que merece um alerta: metade dos respondentes não percebe o conselho e a presidência suficientemente envolvidos no processo.

A mudança identificada no processo de transformação passou por mudanças tecnológicas, de processos operacionais e de cultura, confirmando o escopo da transformação digital utilizado pelo IESE, escola à qual somos associados.

Ao mesmo tempo, grande parte das empresas ainda não mudou drasticamente seus produtos, serviços ou modelos de negócio como parte desse processo. O escopo de transformação utilizado pelo IESE se divide em três grandes mudanças: a plataforma tecnológica, o modelo organizacional e a estratégia.

Para que a cultura e a mentalidade mudem é preciso que as práticas do trabalho sejam modificadas.

Avaliamos as práticas adotadas ao longo da jornada de transformação das empresas participantes da pesquisa. Dentre aquelas em uso que mais contribuíram para esse processo de mudança destacamos as metodologias ágeis e as jornadas dos clientes que já fazem parte de 51% e 33% das organizações pesquisadas, respectivamente.

Vale a pena também salientar a adoção de práticas de design thinking (29%) e inovação aberta (21%) e a falta de conhecimento sobre ferramentas simples como os testes A/B (55% não usam ou não conhecem).

Contratações foram identificadas como fontes de novas capacidades por 58,5% dos respondentes, ao mesmo tempo que as principais limitações para avançar com o processo de transformações estavam ligadas às pessoas: falta de recursos humanos preparados para executar (53,2%), resistência interna à mudança (48,9%) e a competição com o dia a dia (46,8%). A falta de estratégia (44,7%) e a falta de orçamento (36,2%) foram também apontadas como restrições importantes.

Ao correlacionarmos o nível de satisfação em relação à transformação digital de suas organizações com o progresso já realizado, percebemos que os mais satisfeitos são aqueles que já estão há mais tempo na implementação e em fase de escalar as iniciativas. Isso indica que a perseverança vale a pena.

Não desanime!

Para uma efetiva transformação digital considerávamos que os líderes precisariam lidar com alguns componentes primordiais e, portanto, buscamos investigá-los na nossa pesquisa.

O primeiro deles é a motivação para a mudança. Novos hábitos e necessidades dos clientes, mudanças no setor de atuação e a pandemia auxiliaram as empresas a obter a motivação necessária. Em algumas indústrias isso é mais premente, enquanto algumas poucas podem se dar ao luxo de ter um pouco mais de tempo para essa adaptação. Ficou claro que a maioria dos investigados compreende a importância e a necessidade de adaptar-se. Depois, vem a capacidade para a mudança, que envolve o conhecimento e as habilidades para fazer a transformação acontecer.

Ainda existe muito conhecimento a ser alcançado, principalmente tratando-se de novas tecnologias e metodologias de trabalho, e nos despertou a curiosidade verificar o maior conhecimento descrito em torno das metodologias que das tecnologias.

Esse fato pode ser visto como copo meio cheio ou meio vazio. O lado negativo é, ainda, a falta de conhecimento sobre as novas tecnologias digitais e suas aplicações nas diversas áreas das empresas. Já o aspecto positivo é que os executivos têm percebido a necessidade de adotar novas formas de trabalho como parte dessa transformação.


Para participar da pesquisa acesse: https://pt.surveymonkey.com/r/digitaltransf

Sobre
Ricardo Engelbert
Diretor dos Departamentos de Empreendedorismo, Operações, Tecnologia e Informação e Professor de Inovação e Direção Geral Lecturer do IESE. AMP – Advanced Management Program ISE-IESE Business School. Doutorado em Administração Universidade Positivo MBA em Gestão Executiva | FGV Graduação Engenharia Elétrica Universidade Tecnológica Federal do Paraná Carreira Executiva como Diretor de Unidade de Negócios Internet da GVT, Diretor de Serviços Internet, Diretor de Produtos e Novas Mídias. ricardo.engelbert@ise.org.br

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