A frequente utilização do termo “disrupção” para descrever transformações radicais em processos de inovação e também as fantásticas mudanças de mercados devido à introdução de tecnologias digitais, têm gerado uma aura de “Santo Graal” para profissionais e organizações que anseiam em ser “disruptivos”. Afinal de contas, sempre vale a pena ser disruptivo?
Primeiro, ser disruptivo geralmente não é o melhor negócio, no curto prazo, para uma empresa estabelecida. Se adotarmos o conceito de inovação disruptiva, cunhado pelo Professor Clayton Christensen entre 1995 e 1997, as iniciativas disruptivas sempre visam segmentos inferiores e de menor resultado operacional, normalmente negligenciados pelas empresas já estabelecidas, e por isso gerando clientes mal atendidos. Existe uma fórmula de resultado que afasta a estratégia da empresa desses clientes. Romper com esta porção do seu negócio, sendo disruptivo, não gera um bom resultado de curto prazo. Simplesmente não é mais lucrativo que os segmentos de clientes mais rentáveis e que representam o núcleo do seu negócio tradicional. O mais razoável seria destinar recursos do segmento mais baixo e menos atrativo, para os segmentos mais valorizados. Porém, sabemos que no longo prazo, atender essas necessidades negligenciadas pode gerar resultados tão bons, que simplesmente alterarão a fórmula de resultado do negócio tradicional. Melhor do que ser disruptivo, nesse caso, é ser “ambidestro”. Ou seja, equilibrar os resultados obtidos do modelo de negócio atual, com os investimentos e experimentos de novos modelos de negócio. Obviamente, é melhor romper seu modelo de negócio, que deixar essa tarefa para um competidor disruptivo. A exemplo do que os bancos de varejo estão fazendo com as fintechs.
O segundo ponto complementa de certa forma o anterior, e pode ser encontrado nos conceitos publicados em 1911 por Schumpeter, na sua “Teoria do desenvolvimento econômico”. A evolução depende das “mudanças descontínuas” e “destruições criativas”, propiciadas por agentes disruptivos. Porém, as empresas tradicionais que atuam “no fluxo circular” e que se utilizam principalmente das melhorias contínuas, são fortemente incentivadas a incorporar essas transformações para o reestabelecimento do “fluxo circular”, conforme definido por Schumpeter. Em outras palavras, muitas empresas que correm o risco de ser rompidas acabam por copiar ou simplesmente adquirir os agentes “disruptores”. Se você é um agente que está causando disrupção, e que começou a ser notado pelos participantes atuais desse mercado, precisa avaliar muito bem sua posição dentro dessa indústria. Se você ainda não conseguiu estabelecer um novo padrão para esse setor, muito provavelmente um concorrente maior e melhor estabelecido implantará esse padrão e sua iniciativa de disrupção será limitada. Nesse cenário a melhor alternativa é: venda seu negócio quando tiver uma oferta. O exemplo clássico é a história da introdução do computador pessoal envolvendo a disputa entre Apple e IBM.
O terceiro ponto diz respeito especificamente a iniciativas que transformam completamente uma cadeia de valor. Aqui me refiro tanto a empresas estabelecidas, como a novos empreendimentos. As regras que aprendemos com Michael Porter sobre vantagem competitiva e poder de barganha para garantir posicionamento de mercado, têm como premissa básica serem aplicadas a mercados estáveis e conhecidos. As oportunidades para agentes disruptivos aplicarem novas tecnologias para reinventarem as cadeias de valor, desintermediando e reintermediando estas cadeias, são tão infinitas como a criatividade humana. Extrapolar os limites das cadeias, e atender necessidades que nem foram percebidas por clientes, geram ótimos resultados para disruptores que conseguem posicionar-se não como ameaças, mas como alternativas úteis para empresas estabelecidas.
Como podemos ver, a palavra disrupção pode tanto ser aplicada como inovação que vem de baixo, como inovação radical, em contraposição àquela que é incremental e também como reprogramação de modelos de negócios. Entenda bem qual é a sua disrupção – se ela é ameaça ou oportunidade – e repense a sua estratégia.
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Ricardo,
Ótimo artigo, muito bom !
Como você entende que as médias empresas brasileiras poderão ser (ou se valeria a pena ser….) disruptivas após o gradual retorno da quarentena do COVID-19 nos próximos meses ?
Certamente, pensando em sair da crise de forma saudável, nas indústrias ou verticais mais atingidas.
Prezado Mauro.
Muito obrigado pelo seu comentário e pela pergunta.
A crise representará uma grande oportunidade de criarmos inovações disruptivas (no senso clássico que comento no artigo), sempre que as empresas possam prestar atenção a estas novas necessidades, novos hábitos e comportamentos dos consumidores e que não estão sendo ainda atendidas. Inovações “boas o suficiente” podem tornar-se sucesso ao atacarem essas brechas geradas pela pandemia. Eu recomendaria buscar entender o que mudou no cliente, o que ele passou a valorizar mais depois da crise, e fazer o processo inverso de pensar em novas propostas de valor, novos produtos, novos serviços e novas operações. Para dar um exemplo: com certeza as pessoas sairão da crise com maiores preocupações sobre higiene de produtos e serviços, com receio de enfrentar aglomerações e multidões. Péssima notícia para bares, restaurantes, casas noturnas, mas uma oportunidade para entregas, acessórios e produtos de limpeza e novas formas de interação online. As empresas precisam reavaliar seus modelos de negócio para o mundo pós-crise, partindo desses novos hábitos das pessoas.
Excelente exposição da disrupção, Prof. Dr. Ricardo.
Eu tenho observado nos últimos anos diversas empresas investindo esforços, energia e muito dinheiro na inovação disruptiva como remédio para corrigir baixa produtividade, processos produtivos e administrativos bem falhos e erros administrativos básicos.
A disrupção seria um caminho para consertar estas falhas ou para uma empresa já operante, é importante corrigir suas falhas antes de se aventurar à disrupção?
Prezado Paulo.
Muito obrigado pelo seu comentário e pela sua pergunta.
Acredito que a resposta para essa sua pergunta está no que você coloca ANTES da discussão sobre o tipo de inovação a ser adotada.
Algo que vai nos indicar o caminho se precisamos corrigir falhas (inovação contínua ou incremental, que podemos até chamar de Kaizen), ou uma inovação radical (que altera completamente o modelo de negócios e de operações da nossa empresa), ou ainda uma inovação disruptiva (que é mais simples e atende segmentos inferiores dos meus clientes, ou cria um novo parâmetro de competição para avaliar o sucesso do meu negócio).
Imagino que você já sabe qual é essa força que deveria nos fazer escolher o melhor caminho… É o que gera valor para nossos clientes.
Por isso gosto de aplicar o Lean Thinking antes de falar de inovação dentro de uma empresa. A primeira pergunta do pensamento enxuto é: “O que é valor para o meu cliente?”. Se estamos falhando em entregar esse valor, precisamos corrigir isso imediatamente. A partir daí eu acho que encontraremos a resposta para sua pergunta excelente pergunta, mas no caso a caso, prestando muita atenção aos nossos clientes.
Um forte abraço!