Cloroquina mata ou salva? Usar máscara é vital ou mais uma burocracia? A melhor estratégia para o Brasil é o lockdown ou o isolamento vertical? Os números de pessoas mortas pela COVID-19 estão corretos ou foram subnotificados?
Tenho certeza de que você já fez algum destes questionamentos ao longo destes últimos meses. Estamos sendo desafiados a tomar decisões importantes sobre a nossa vida diante de um fato novo e desconhecido, enquanto gerenciamos um volume excessivo de informações.
No dia 31 de março de 2020, o Departamento de Comunicação das Nações Unidas declarou que junto com a COVID-19, o mundo deveria enfrentar outro inimigo: a “infodemic”[i]. O órgão explicou que o excesso de informações falsas, incompletas e/ou rumores, durante uma emergência sanitária, poderia prejudicar as medidas de saúde pública e gerar confusão e desconfiança entre as pessoas. Todos nós vimos casos deste tipo entre as milhares de informações compartilhadas neste período. Tivemos, por exemplo, vários tratamentos sendo sugeridos: do alho ao cultivo de sementes “santas”. Para combater este mal, a ONU criou uma página para desmitificar alguns rumores sobre a doença[ii] e sugeriu que as pessoas privilegiassem fatos, ciência, esperança e solidariedade ao invés de desespero e desunião.
Mas são tantas informações científicas, que fica difícil discernir o que é verdade. As Professoras Gaeta Menon e Ellie J. Kyung publicaram um artigo em que afirmam que este excesso de informação causa incerteza[iii]; um sentimento antinatural que gera desconforto nas pessoas. Diante de circunstâncias assim, o sistema cognitivo anseia pelo certo e o seguro. As autoras exemplificam seu argumento afirmando que algumas pessoas sentem-se mais calmas e menos agitadas quando sabem que tomarão um choque elétrico do que aquelas que acham que podem receber um choque elétrico.
Quando temos de lidar com a incerteza, ambiguidade e complexidade, nosso processamento da informação entra em colapso. E se não tivermos um mapa bem definido do caminho a ser percorrido? A quem vamos recorrer?
Gostaria de apresentar algumas reflexões sobre este dilema. Precisamos de um tratamento adequado, caso contrário entraremos na “treva branca” de José Saramago.
OS MEDIADORES DA INFORMAÇÃO
A nossa realidade é composta por elementos objetivos e subjetivos. Quando estamos diante do desconhecido, nos sentimos desamparados e perdidos. Para diminuir a tensão, buscamos a segurança dos especialistas e profissionais.
A pesquisa do Orbis Media Review[iv] em março apontou que os sites de notícia e a TV foram os principais canais de novidade sobre a Covid-19. Os resultados positivos indicaram que os brasileiros estavam buscando o jornalismo profissional para se municiar de informações sobre a doença. No mesmo período, a Agência Edelman de Comunicação publicou um estudo feito em dez países – África do Sul, Alemanha, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido -, apontando a comunicação do empregador como a fonte mais confiável neste período; 18 pontos à frente das empresas em geral e ONGs e 27 pontos à frente do governo e da mídia[v]. Já a Professora e Pesquisadora do IFF/Fiocruz, Suely Deslandes, afirmou que a Internet e as redes sociais foram as fontes que trouxeram mais benefícios para a população por favorecer a conscientização e a conexão entre as pessoas. Mas a Professora também alertou que o uso irrestrito destes meios pode gerar um comportamento compulsivo, que aumenta a percepção de um “medo global”. A 11ª onda da pesquisa da Opinion Box no início de junho[vi] confirmou esta tendência ao demonstrar que os entrevistados estão investindo mais tempo na Internet e nas mídias sociais, enquanto sentem mais tédio e medo de sair de casa.
O aumento contínuo da utilização destas fontes de informação “não convencionais” reacendeu a discussão sobre a necessidade de uma regulamentação específica. Os políticos brasileiros acharam oportuno aproveitar este tempo para desenvolver formas de controlar as mídias sociais. No dia 30/06/2020 o Senado Nacional aprovou o projeto da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet [vii]. Acredito que esta decisão abre um precedente perigoso. Para justificar sua ação, o Senado divulgou uma pesquisa do Instituto Data Senado em que a maioria dos entrevistados declarou apoiar a criação de uma lei contra fake news. Um levantamento do Datafolha demonstrou um resultado diferente: 75% dos entrevistados acreditam ter o direito de ter uma conversa privada sem serem rastreados[viii]. A China, que é o case de controle social em larga escala, verifica as fotos, vídeos e áudios dos smartphones de todos os seus cidadãos em uma central de análise de dados do governo. O deslocamento de casa para o trabalho é acompanhado por câmeras capazes de reconhecer o rosto da pessoa em milésimos de segundos. As fontes oficiais afirmam que: “apesar de soar intrusivo, o uso de reconhecimento facial é aprovado pela maior parte da população chinesa, que associa o uso destas tecnologias à sensação de segurança”[ix].
Estas aspirações tecnocratas me lembraram os avisos assustadores da distopia de Orwell: “O Grande Irmão está de olho em você”. A decisão do Senado Federal foi seguida por uma série de manifestações. Representantes das empresas de mídia fizeram declarações incisivas: “estamos decepcionados com a decisão do Senado. As notícias falsas são um grande problema social que existe há séculos em toda forma de comunicação. Estamos combatendo a desinformação por meio de mudanças significativas para reduzir mensagens em massa e virais, que geraram uma redução de 70% nas mensagens atualmente encaminhadas no WhatsApp. Forçar as empresas a adicionar um carimbo permanente a todas as mensagens privadas enviadas pelas pessoas marcaria o fim das conversas particulares – tudo o que você disser ou encaminhar seria rastreado e poderia ser usado contra você”[x]. A própria ONU apelou aos políticos no período que precedeu a votação. O relator para Liberdade de Expressão do órgão alertou que: “um dos aspectos que é essencial nos direitos humanos é a liberdade de expressão e há um consenso que qualquer restrição a isso é uma potencial barreira aos direitos democráticos básicos”[xi]. O jornalista experiente Alexandre Garcia alertou que existem mentiras nas mídias sociais, mas elas não estão somente ali. As redes aprenderam isso com os meios tradicionais de comunicação”[xii]. De fato, há mais de dois mil anos, Aristóteles já alertava para os riscos da falácia: uma linha de raciocínio falsa, com um objetivo torpe ou desonesto, mas convincente, que parecia verdadeira. Acredito que as redes sociais apenas refletem aquilo que é mais humano. Por isso, a liberdade de expressão deve ser prezada ao máximo em um ambiente livre.
Se é fato que as informações tendenciosas e/ou falsas estão presentes em todos os canais, o primeiro dilema que se impõe é: quem define o que é falso, verdadeiro ou útil para mim? O jornalista colaborador da Orbis Media Review João Payne fez um questionamento intrigante em seu artigo[xiii]: “Trabalhar com verdades é uma tarefa complicada, pois elas nem sempre são fáceis de encontrar, podem ser conflituosas e estão sujeitas às circunstâncias (…) Se verificar fatos, portanto, já é uma tarefa delicada, o que dizer de julgar a intenção daqueles que criam e divulgam conteúdo? Um veículo de fake news, afinal, não é aquele que publica uma mentira ou gafe pontual, mas aquele que age com o intuito de enganar a população, desinformar e manipular. Mas como podemos conhecer a intenção de outros jornalistas ou meros influenciadores?”.
Um dos senadores propositores da PL2630, quando questionado por um jornalista sobre este risco de concentrar a definição do conteúdo das notícias (se elas são falsas ou não) respondeu categoricamente: “Em uma democracia, em última instância quem decide o que é verdade ou não é o judiciário…”.
Eu acredito que a definição do verdadeiro e útil depende de um empenho pessoal e de um rico debate em um ambiente propício.
A VERDADE E SUAS VÁRIAS FACETAS
Um importante inquisidor já fez esta pergunta há algum tempo: Quid est veritas? (O que é a verdade?).
Encontrar a verdade não é um exercício simples. São muitos fatos e factóides disputando nossa atenção diariamente. Não basta realizar uma simples “checagem das fontes” como nos indicou o Senado Federal (se a fonte é confiável o problema está resolvido), é preciso responder estes questionamentos em primeira pessoa.
Para ajudá-los em sua jornada, acho válido demonstrar que a “batalha de narrativas” é um processo natural da comunicação social. Cada pessoa emite e processa mensagens a partir do seu sistema de referências. Esta “lente” do mundo é única e irrepetível; formada por uma história de vida, experiências, valores, emoções e aspirações transcendentes. Este conjunto de elementos pessoais influencia a forma como uma pessoa interpreta a realidade. Por isso, nenhuma narração de fatos é plenamente isenta, ela sempre portará um pouco do seu transmissor. O jornalista que narra ininterruptamente o número crescente de mortes por COVID-19 ou o Profissional que alega que seus argumentos estão baseados estritamente na ciência partem de um pressuposto.
Além das posições individuais, estamos inseridos num contexto social mais amplo, que recebe influência de correntes de pensamento poderosas. Carlos Llano, um dos principais professores da Escola de Negócios do México (IPADE) e um dos grandes teóricos da rede de escolas associadas ao IESE, descreveu o tecido social pós-moderno com três forças dominantes[xiv].
Para o autor, o funcionamento da sociedade contemporânea tinha dois pilares centrais: o mercado e o estado. Estas seriam as representações de duas instâncias valiosas da vida: o economicismo transacional mercantil e o racionalismo do plano estatal. Partindo desta perspectiva, a relação destes dois pilares se expressaria numa oscilação de correntes: mais Estado e menos mercado ou mais mercado e menos Estado. Com o passar dos anos o âmbito da comunicação coletiva se converteu num fator persuasivo e determinante na sociedade, tornando-se um poderoso ente. Com este esquema, Llano descrevia muitos comportamentos humanos: executivos obtendo dinheiro para adquirir poder, funcionários públicos adquirindo dinheiro por meio do poder e a imprensa conseguindo dinheiro e poder através de sua influência.
Estas forças presentes em nossa história poderiam causar uma homogeneização de pensamento, dificultando a avaliação pessoal. Segundo o autor, a sociedade pós-moderna permitiu que o Estado, o Mercado e os Meios de Comunicação invadissem a esfera pessoal de análise e decisão: Jornais e a Televisão ditam formas e modelos, o Estado determina as linhas básicas de educação desde a infância e molda as investigações científicas, e o Mercado comercializa a moda, expondo artefatos de status, realização e felicidade.
O livro “A rebelião das Massas” de Ortega y Gasset faz um retrato magistral deste fenômeno: “Há um fato que, para o bem ou para o mal, é o mais importante na vida atual: a ascensão das massas ao completo poder social (…) A massa atropela tudo que é diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não é como todo o mundo, quem não pensa como todo o mundo corre o risco de ser eliminado”. Observem que este livro começou a ser escrito em 1926! Seu retrato segue atual ainda hoje.
O TRATAMENTO ÉTICO
Para Carlos Llano, nenhum destes paradigmas supracitados é suficiente para responder às necessidades da sociedade. A vida humana é mais rica, heterogênea e profunda que qualquer outra realidade. O mundo das relações pessoais não pode traduzir-se exclusivamente em termos de dinheiro, influência ou poder. Para fugir da “bolha” superficial de opiniões, é preciso recorrer ao ethos vital das nossas relações mais íntimas.
Acredito que a vida corrente e ordinária é a saída mais prática para deixarmos o labirinto em que estamos. Muitas vezes nos perdemos em discussões abstratas, teóricas e/ou influenciadas por correntes de pensamento que não correspondem àquilo que vivemos. Neste mundo pessoal, que Edmund Husserl denominou como Lebenswelt (família e amizade), não estamos submetidos ao cálculo transacional ou à ação despersonalizante. Somos acolhidos com a nossa forma de ser, e o debate se torna mais honesto e enriquecedor, porque ali impera a confiança, a alegria e o perdão.
Acredito que neste momento turbulento que estamos vivendo, não podemos renunciar às nossas relações pessoais. Se estamos navegando sem um mapa bem definido do caminho que devemos percorrer, só nos resta “olhar para dentro”. Devemos reavaliar a forma como estamos incidindo sobre esta comunidade silenciosa da família, dos amigos e do trabalho.
Comungo da visão de Carlos Llano de que o que necessitamos não é uma grande mudança estratégica. O “novo normal” logo mais se tornará a antiga vida imprevisível de sempre. O que precisamos é de uma influência maior da vida ordinária em nossas decisões. As escolhas substanciais não dependem dos modelos, mas de uma transformação interna e pessoal.
A verdade não é uma resposta definitiva sobre os desafios da COVID-19, ela é uma jornada pessoal! Tenham audácia de avaliar estes dilemas a partir daquilo que mais nos aproxima do real. Não precisamos apenas vencer este vírus, devemos melhorar nossa capacidade de avaliar a realidade e tomar decisões mais prudentes nos espaços em que incidimos hoje.
Coragem!
REFERÊNCIAS
[i] https://www.un.org/en/un-coronavirus-communications-team/un-tackling-%E2%80%98infodemic%E2%80%99-misinformation-and-cybercrime-covid-19
[ii] https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/advice-for-public/myth-busters
[iii] https://hbr.org/2020/06/when-more-information-leads-to-more-uncertainty
[iv] https://orbismedia.org/oportunidades-e-esperancas-para-o-jornalismo-em-meio-as-mas-noticias-da-covid-19/
[v] https://www.edelman.com.br/estudos/edelman-trust-barometer-2020-especial-coronavirus
[vi] https://materiais.opinionbox.com/thankyou-pesquisa-coronavirus
[vii] https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/06/30/aprovado-projeto-de-combate-a-noticias-falsas
[viii] https://www.mobiletime.com.br/noticias/29/06/2020/75-dos-brasileiros-nao-querem-ser-rastreados-em-apps-de-mensageria/
[ix] https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2019/01/19/a-sociedade-mais-vigiada-do-mundo-como-a-china-usa-o-reconhecimento-facial.htm
[x] https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/07/01/pl-das-fake-news-veja-a-repercussao-da-votacao-do-senado.htm
[xi] https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/06/30/pl-da-fake-news-e-ameaca-ao-debate-democratico-alerta-relator-da-onu.htm
[xii] https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/senado-aprovou-pl-fake-news-censura/
[xiii] https://orbismedia.org/vigilancia-do-trabalho-alheio/
[xiv] https://www.carlosllanocatedra.org/libro-sistemas-vs.-persona-antes-el-postmodernismo-en-la-empresa


