Impressiona a evolução que vemos na gestão das empresas do Século XXI. Hoje podemos falar livremente sobre assuntos que soariam inomináveis para alguns líderes empresariais do século passado: queremos chefes que façam mais do que mandar, esperamos encontrar algo mais do que um simples depósito bancário no fim do mês, valorizamos o equilíbrio e a manutenção da saúde física, mental e espiritual enquanto dedicamos horas no trabalho, propomos rotinas mais flexíveis, responsabilizamos nossas corporações por sua atuação dentro e fora do mercado, lutamos para equalizar direitos e acessos para ter um ambiente mais plural.
As empresas estão inseridas em um contexto histórico, e por isso, os “ventos da mudança” sempre soprarão de alguma forma. E como todo organismo vivo, elas são desafiadas a nascer, crescer, amadurecer e, quem sabe, até padecer.
Uma analogia que gosto de fazer quando penso nestes ciclos contínuos de transformação são as longas caminhadas que já fiz nas montanhas mineiras. Por mais preparado que você acredite que esteja, a realidade parece sempre conseguir te impor um exercício forçado de reflexão sobre a sua jornada. É preciso, em algum momento, parar e avaliar para onde estamos indo e a qualidade dos equipamentos que estamos levando em nossas mochilas: descartar o que já não é mais necessário, incluir algo de novo que se descobriu pelo caminho e manter o que for vital.
Na minha caminhada da vida, escolhi dar mais uma parada e refletir um pouco mais sobre este tema da diversidade. O assunto é cada vez mais recorrente entre os fóruns de gestão empresarial e concordo que ele é realmente importante. No entanto, nunca vi grande novidade nesta ideia de que “para que um ambiente seja mais humano, ele precisará ser mais plural, diverso e inclusivo”. Há mais de vinte anos, quando cursava comunicação social, aprendi que as pessoas são seres únicos e irrepetíveis, que portam uma perspectiva peculiar. Esta visão pessoal é formada por aquilo que ela é, e o que porta na sua “mochila da vida”.
Para destacar a importância de ter um olhar mais humano e individualizado na gestão empresarial, cunhamos aqui no ISE o termo “multiversidade”. Esta palavra sempre me remete ao multiverso das teorias científicas modernas: a possibilidade de coexistirem outros universos paralelos ao nosso.
Acho esta uma ideia mais poderosa! Já me disseram que o ser humano é uma ilha. Dada a natureza social das nossas organizações, tendo a acreditar que o ser humano aproxima-se mais de um pequeno universo individual que convive com outros universos paralelos.
Como já vimos em alguns filmes, estes universos tendem ao conflito. E eu acho que está faltando algo importante neste debate atual. Nas minhas aulas sobre comunicação e negociação, quando falo sobre o aumento da diversidade no ambiente de trabalho (o que é algo bom e fundamental) alerto para o possível aumento na incidência dos conflitos.
Nunca encontrei um aluno que discordasse de que devemos ter um ambiente de trabalho mais aberto aos outros, mas vejo poucos que se sentem confortáveis em conviver com as divergências que esta decisão ocasionará naturalmente.
Se o ambiente for livre, o convívio tornará o conflito inevitável. Acredito que conflito está em nossa natureza, como parte de um processo humano de autoconhecimento e amadurecimento. Mas sempre que falo isso, muitas pessoas acionam seus gatilhos linguísticos que correlacionam este termo com situações negativas, dolorosas ou às vezes até traumáticas.
Gosto de esclarecer que o conflito não é essencialmente ruim ou bom. Conflitos são choques, divergências na forma como compreendemos e refletimos o mundo, os fatos e os seus acontecimentos.
A divergência nos abre para ver a situação sob outro prisma, ela pode nos libertar do nosso universo individual e peculiar. Uma organização, uma equipe ou uma relação em que não se identifica algum nível de conflito, tenderá a não aprender, amadurecer ou melhorar. Se respeitamos de fato o que somos e o valor que existe na pluralidade das pessoas, temos de aprender a dialogar, ou seja, a lidar com os conflitos.
Esta é uma decisão que exige coragem. Cada vez mais encontro alunos que se dizem tolhidos de sua capacidade de dialogar livremente sobre o que pensam e acreditam em seu ambiente de trabalho. Muitos param nos muros idios [1]: generalizações simplistas que tentam nos reduzir em categorias.
Eu entendo que a divisão de pensamento é algo imanente. Mas cuidado! Nenhuma categoria política, étnica, social ou ideológica conseguirá sintetizar tudo aquilo que somos. Nossas complexidades e peculiaridades nos tornam únicos, como aquele universo cheio de belezas e mistérios.
Se sabemos e conseguimos verificar que somos diferentes, e assim seremos, será preciso ter coragem para discordar. Quando eu digo: “não concordo com você” ou “eu penso diferente de você”, eu abro o precioso campo do diálogo.
É preciso saber justificar e ouvir, e muitas vezes teremos de nos contentar em não convencer. A mudança de atitude ou posição depende de uma série de fatores. Mas o primeiro deles é conhecer o contraditório.
Se nós não transformarmos a defesa da inclusão em um ambiente profissional maduro que permita a união de contrários, não teremos uma organização verdadeiramente plural, apenas uma unanimidade fingida.
Ichiro Kihimi e Fumitake Koga afirmaram [i] em seu livro “A coragem de não agradar” que:
“ao buscar ser aceitos, aprovados, apreciados e reconhecidos o tempo todo, talvez percamos a espontaneidade. E a essência. Conquistar liberdade, satisfação e confiança parece demandar boa dose de coragem para que a vida seja pautada, não em verdades convenientes, mas na sua própria verdade. O que pode vir a desagradar outros e uns”.
Defender as minhas convicções exige maturidade e humildade para respeitar o outro por aquilo que ele é: um ser valioso, carregado de opiniões, algumas das quais discordo, mas com quem mesmo assim posso conviver, colaborar, e quem sabe até aprender.
Como líderes, temos esta responsabilidade de fomentar um ambiente humano verdadeiramente diverso: onde se acolhe, respeita, corrige e se aprende com as diferenças de todos, sem exceção. Se não fizermos isso, incentivaremos uma conduta cínica, que finge acolher, mas que no fundo quer apenas convencer.
Na mitologia grega, temos a analogia perfeita: a história de Procrusto. Ele era um homem de estatura e força extraordinárias que vivia nas colinas da Ática. À primeira vista, ele parecia um homem gentil, que oferecia sua casa como abrigo a qualquer viajante necessitado que por acaso o encontrasse. A casa tinha duas camas, uma curta e outra comprida. Quando o viajante dormia, Procusto amordaçava seu hóspede e, se o corpo da vítima fosse muito grande, ele amputava algumas partes do indivíduo. Ao contrário, se a vítima fosse pequena, ele quebrava o corpo com um martelo para alongá-lo.
Dizem que ninguém nunca coube nas camas da casa de Procrusto…
Será que o problema eram as camas ou a intenção do anfitrião?
Te proponho aproveitar este movimento natural de repensar as práxis da gestão empresarial para desenvolver uma empresa diferente da casa de Procrusto. Precisamos de mais diversidade e inclusão. Precisamos também aprender a conviver, respeitar e valorizar os conflitos que surgirão naturalmente.
Espero que as nossas diferenças não sirvam como as partes que o gigante cínico molda ao seu feitio. Espero que possamos ser verdadeiramente acolhedores com os nossos colaboradores, que são todos indivíduos livres, diversos e valiosos.
Coragem!
_____________________________________________________________________
Referências:
[1] Idios vem do grego e significa “privado” ou “pessoal”. Esta palavra derivou o termo “idiotes”, que formulou a palavra latina “idiota” que usamos até hoje no português.
[i] https://www.amazon.com.br/coragem-n%C3%A3o-agradar-Ichiro-Kishimi/dp/8543105692/ref=sr_1_1?qid=1657902634&refinements=p_27%3AIchiro+Kishimi+e+Fumitake+Koga&s=books&sr=1-1
-
[…] deixar este assunto ainda mais claro, deixo a recomendação de um artigo do Prof. Renato Fernandes, do Departamento de Direção […]
[…] deixar este assunto ainda mais claro, deixo a recomendação de um artigo do Prof. Renato Fernandes, do Departamento de Direção […]
Deixe um Comentário


Artigo extraordinário, espero que cheque aonde ele se faz necessário!!
Sensacional. Ótimo artigo.