Diversidade, ESG e Inovação são os três temas mais em voga nos fóruns de Governança. Neste artigo, me dediquei a analisar a diversidade com o olhar de conselheiro. A simples menção do termo diversidade pode gerar ansiedade e conflito.
Tive o prazer e a honra de coordenar os trabalhos relativos ao capítulo sobre Conselho de Administração na 5ª. Revisão do Código de Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, que foi divulgada em 2015.
O Código diz que
“na composição do Conselho de Administração, a diversidade de perfis é fundamental, pois permite que a organização se beneficie da pluralidade de argumentos e de um processo de tomada de decisão com maior qualidade e segurança”.
Katherine W. Phillips (1972-2020), professora da Columbia University’s Business School, escreveu um ótimo artigo sobre o tema, com o título How Diversity Make us Smarter na revista Scientific American em outubro de 2014. Ela conclui que estar na companhia de pessoas que são diferentes de nós, nos faz ser mais criativos, mais diligentes e mais dedicados ao trabalho.
A conclusão de Katherine foi baseada em décadas de pesquisas por cientistas organizacionais, psicólogos, sociólogos e economistas, entre outros. As pesquisas mostram que grupos socialmente diversos (com diversidade de conhecimentos, experiências, gênero, etnia, faixa etária, aspectos culturais e orientação sexual) são mais inovadores do que grupos homogêneos.
Isto não ocorre somente porque profissionais com diferentes experiências trazem novas informações. A simples interação com pessoas de diferentes perfis força os membros do grupo a se prepararem melhor, anteciparem pontos de vista alternativos e esperar que a busca de consenso nas decisões demande um certo esforço.
Katherine considera que a diversidade de expertise traz benefícios óbvios, mas ela pondera que diversidade social pode causar desconforto, interações mais difíceis, falta de confiança, maiores conflitos interpessoais, pior comunicação, menos coesão, maior preocupação com desrespeito e outros problemas. Então, onde estão os ganhos?
A professora de Columbia argumenta que se você quiser construir equipes ou organizações capazes de inovarem, você precisa de diversidade. A diversidade reforça a criatividade e encoraja o uso dos cinco sentidos na busca por informações, levando a uma melhor tomada de decisões e solução de problemas. A mesma lógica se aplica para diversidade social. Quando o grupo conta com pessoas de diferentes etnias, gêneros e outras dimensões, tem acesso a informações e experiências diferenciadas. Um homem e uma mulher engenheiros têm perspectivas tão diferentes quanto um engenheiro e um físico. Isto é uma coisa boa! No livro The Five Dysfunctions of a Team, Patrick Lencioni lista as cinco razões para que uma equipe não funcione bem, e elas caem como uma luva nos conselhos. A primeira e mais crítica razão é a ausência de confiança. Quando não há confiança, os participantes não se abrem totalmente, com medo de reprovação. Evita-se o conflito construtivo. Cria-se uma harmonia artificial. No Brasil, a vasta maioria de empresas, sejam abertas ou fechadas, são empresas de donos, com um controlador ou grupo de controle claramente definido. Normalmente, homens brancos entre 40 e 80 anos de idade. Na hora de definir a composição dos conselhos, são eles que decidem. Quando investidores minoritários elegem conselheiros, a tendência é colocar membros da sua equipe ou profissionais alinhados com seu perfil. Dificilmente a escolha, seja de um controlador ou de um minoritário, considera os desafios estratégicos da empresa, os gaps de conhecimentos e experiências e a necessidade de diversidade. É mais fácil confiar em alguém que tenha características semelhantes às suas.
Como Howard Ross explica no seu livro Everyday Bias, se nós somos humanos, nós temos vieses, aqui definidos como uma inclinação ou tendência particular que evita considerações sem preconceitos de uma determinada questão. Estes vieses causam um impacto sobre todos os aspectos de nossas vidas. Nos negócios, eles têm influência sobre como conduzimos entrevistas, quem nós contratamos, quem nós promovemos, a quem nós damos oportunidades…
Quanto mais os vieses forem inconscientes, menor a chance de tomarmos as melhores decisões. Para que o dono de empresa escolha um membro de Conselho com características muito diversas das suas, ele tem que estar aberto ao contraditório, ao conflito construtivo. Ele precisa aceitar ser desafiado. Isto demanda muita maturidade! Ele tem que estar aberto a desconstrução de pensamentos estruturais, disponível a ter acesso a novas ideias e aprender com o outro. Atuar com humildade e sabedoria. Nós precisamos da diversidade nos conselhos, nas organizações, na sociedade, para mudar, para inovar e crescer. Conselhos de alto desempenho precisam ter diversidade. A mudança depende de nós!
Publicado no Linkedin em 27/10/2020
Paulo Conte Vasconcellos é Conselheiro da Serra Azul Water Park e da Viacerta Financiadora e nosso convidado para a série de painéis, Governança em Debate


