A aprendizagem como competência fundamental

O conceito de educação ao longo da vida é a chave que abre as portas do século XXI; ele elimina a distinção tradicional entre educação formal inicial e educação permanente. Sob essa nova perspectiva, a educação permanente é concebida como algo que vai mais além do que já se pratica, como as iniciativas de atualização, reciclagem e conversão, além da promoção profissional dos adultos. A educação continuada deve abrir possibilidades para todos: oferecer uma segunda ou terceira oportunidade; dar resposta à sede de conhecimento, de beleza ou de superação de si mesmo; ou, ainda, aprimorar e ampliar as formações estritamente associadas às exigências da vida profissional.”

Já se passaram mais de 14 anos desde a divulgação do relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI da UNESCO, e o mesmo continua atual e muito importante.

Continuar aprendendo, além de ser uma escolha, é também uma habilidade essencial, pois molda nossa jornada pessoal e profissional. Acredito que essa habilidade será o diferencial que nos permitirá prosperar, e não apenas sobreviver, em um cenário de constante mudança. Inclusive, no último relatório do WEF de 2025 sobre as competências fundamentais, a aprendizagem ativa e a estratégia de aprendizagem aparecem nas primeiras colocações.

 

 

Devemos abraçar plenamente a aprendizagem como uma parte central do nosso desenvolvimento em todas as esferas em que atuamos – em casa, no trabalho, na sociedade. Entendemos que a capacidade de continuar aprendendo é uma habilidade em si mesma. Como observado no artigo Lifelong Learning, aqueles que escolhem seguir aprendendo são naturalmente curiosos e, mais importante, têm a humildade de reconhecer que não sabem tudo.

A humildade intelectual é o ponto de partida para o desenvolvimento contínuo. Sabemos que o aprendizado não se limita à fase inicial da vida, mas deve ser um compromisso ao longo de toda a nossa existência. Aprender novas competências e adquirir novos conhecimentos em todas as fases de nosso crescimento nos torna mais adaptáveis, resilientes e capazes de enfrentar os desafios de um mundo em constante transformação.

Estamos à beira de uma revolução demográfica e tecnológica que afetará profundamente a maneira como vivemos e trabalhamos. Com os avanços da ciência, da tecnologia e da medicina, estamos presenciando o surgimento de uma geração que, possivelmente, viverá até os cem anos ou mais: nossos filhos e netos. No entanto, quanto mais a tecnologia avança, mais se faz necessário aproveitar as oportunidades que temos, como seres humanos, para fazer o que é próprio e único do humano: refletir, usar o discernimento, aplicar melhor julgamento (aquele realizado com todas as informações possíveis que temos ao alcance), ser criativo na resolução de problemas, dar sentido a situações complexas, reinventar-se e inspirar as pessoas.

Nossos cérebros e a nossa formação moral continuam sendo ferramentas insubstituíveis para lidar com dilemas e questões que os algoritmos e máquinas, por si só, não podem resolver. O lifelong learning nos permite continuar desenvolvendo essas habilidades inatas, ampliar nossas capacidades para enfrentar os desafios humanos com criatividade e empatia, além de fortalecer nossa inteligência emocional.

Historicamente, nossa jornada de vida foi dividida em blocos: as primeiras duas décadas para a educação formal, as quatro décadas seguintes para o trabalho e, finalmente, a fase da aposentadoria. Esse modelo está rapidamente se tornando obsoleto. Hoje, com a expectativa de vida mais longa, precisamos adotar um novo modelo que inclua o aprendizado ao longo de todas as fases da vida para acompanhar o dinamismo das mudanças cada vez mais frequentes.

Entretanto, a palavra “aposentado” já não reflete a realidade de muitos indivíduos que estão ansiosos por continuar ativos e produtivos em suas vidas pós-carreira formal. A aposentadoria tradicional precisa dar lugar a um novo conceito: um período de mais duas décadas de aquisição de novas competências, além de dedicação a tutorias e mentorias de experiência adquirida, consultoria e participação em conselhos, para listar apenas alguns exemplos.

Será que as organizações deveriam reconhecer que a aprendizagem já é uma competência por si só? Para que os colaboradores se mantenham relevantes e produtivos, é essencial que cada um encontre sua própria “maleta cultural” — um conjunto de conhecimentos, habilidades e experiências que os mantenham intelectualmente engajados e em constante crescimento.

Como mencionado em Um dos papéis mais importantes do líder“, é necessário que todos nós exercitemos nossos “músculos mentais”, pois uma boa parcela da verdadeira liderança vem da capacidade de ser um eterno estudante, de continuar aprendendo. E precisamente esta curiosidade intelectual, aliada à busca por novas habilidades, já é um dos principais diferenciais para o sucesso profissional nos próximos anos.

Essa é a verdadeira revolução humana: o fato de que podemos continuar aprendendo em todas as fases da vida. Nossa capacidade de seguir curiosos e engajados no aprendizado é o nosso grande diferencial. O aprendizado contínuo é, sem dúvida, a chave para o progresso humano no século XXI, nos permitindo alcançar novos patamares de realização.

Sobre
Erica Rolim
Professora do Departamento de Direção Comercial Coordenadora de Projetos e Pesquisas de Empresas Familiares Coordenadora do CEHDI (Centro de Estudos de Humanidades e Desenvolvimento Integral) Doctor of Business Administration | Grenoble Ecóle de Management AMP – Advanced Management Program  | IESE Business School (campus SP, sede do ISE Business School) PMD – Program for Management Development | IESE Business School (campus SP, sede do ISE Business School) Mestrado – Administração de Empresa | PUC/SP Bacharelado em Estatística | UNICAMP

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