Raízes do comportamento ético nos negócios — Parte I

O noticiário doméstico e internacional tem divulgado muitas notícias nos últimos tempos sobre comportamentos éticos equivocados na atuação de profissionais do mundo corporativo, no setor público e privado. Em contrapartida, felizmente, não é de todo raro sabermos de executivos que, mesmo atuando em contextos de negócio complexos do ponto de vista ético, conseguiram manter-se íntegros.

Surge a pergunta: quais são as raízes do comportamento ético? Qual o papel das características internas da pessoa? De que forma e até que ponto influem os fatores externos no comportamento ético individual? A sociologia e a psicologia apontam um número de fatores internos e externos que influenciam o comportamento ético ou moral. Trataremos aqui dos fatores internos.

A esse propósito, o Prof. Doménec Melè, do IESE Business School, apoia-se no psicólogo americano James Rest, que aponta quatro componentes-chave do comportamento ético. A pessoa que tenha desenvolvido bem esses quatro componentes é moralmente madura e terá um comportamento ético.

1) Sensibilidade moral

É a habilidade de reconhecer os aspectos éticos envolvidos numa decisão a tomar. Saber como uma decisão afetará o bem de outras pessoas. Essa sensibilidade moral pode ser desenvolvida ou, ao contrário, poderá diminuir, atrofiar-se e até extinguir-se completamente, pela sistemática negligência ética.

2) Julgamento moral

É a capacidade de avaliação ética de uma situação que requer uma decisão, ser capaz de resolver dilemas éticos. ‘Prestei um serviço honesto e correto a uma Prefeitura e agora me estão pedindo dinheiro para liberar o pagamento. Devo pagar? O agente corruptor sou eu? Posso pagar para receber um direito meu?’

Todos esses são raciocínios de quem exerce julgamento moral. Vemos como é necessária uma formação específica, discernimento claro de conceitos éticos e de circunstâncias especificas do caso concreto que afetam a qualificação moral da decisão. Autojustificativas simplistas do tipo ‘todo mundo faz’ são, na verdade, uma pseudoética. Como crescer na capacidade de julgamento ético? Pela formação pessoal e aconselhamento. O julgamento moral nasce de um senso de dever que guia a consciência e determina se a pessoa levará adiante a ação ou se deverá abster-se.

3) Motivação moral

É a inclinação que leva uma pessoa a seguir o seu julgamento moral. Por que vou resistir à extorsão? Por que sim, por que é o certo, por que a sociedade tem que melhorar, por que quero deixar um mundo melhor para os meus filhos, por que é o único comportamento digno de um ser humano. Todos esses são argumentos de pessoas com boa motivação moral.

4) Caráter moral

É a identidade ética de uma pessoa, a sua “marca moral”, é o conjunto de virtudes e hábitos morais que a qualificam. As virtudes se desenvolvem ao decidir e atuar livremente. No ambiente de negócios, ter carácter significa ser íntegro, justo, honesto, veraz, corajoso.

caráter moral dá a uma pessoa força interna para atuar de forma correta com rapidez, facilidade e alegria. É o fator interno mais importante dos quatro, que sustenta os demais. Significa ter força de convicções, coragem para superar situações adversas e obstáculos.

Esses elementos constituem a base fundamental da capacidade de bem atuar no terreno ético e dependem essencialmente da educação básica e familiar recebida pela pessoa, além das suas decisões livres e aprendizagens experimentadas ao longo da vida.

Sobre
Jorge Mitsuru
Diretor do Departamento de Ética nos Negócios e Professor de Gestão de Pessoas. - Senior Lecturer | IESE Business School - Doutor e Mestre em Engenharia | Escola Politécnica da USP - Engenheiro de Produção | Escola Politécnica da USP - Membro do Comitê de Direção
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