Antes que me julguem e atirem suas pedras, confesso publicamente: eu já depositei minha esperança em um mundo melhor várias vezes! Entre abraços entusiasmados com amigos e familiares, eu cantei altivamente o hino da hybris humana sobre a vida futura. Estourei o champagne e desejei apaixonadamente um mundo sem injustiças, intempéries humanas, medo e a morte. Fiz isso de forma natural, quase inocente, assim como fiz quando acreditei que poderia encontrar um emprego melhor, uma boa esposa e ter muitos filhos.
Segundo Joseph Ratzinger, a esperança é uma palavra central da fé bíblica. A carta aos Hebreus liga a “plenitude da fé” com a “imutável profissão da esperança”. De fato, desde a Idade Média, a fé e a esperança estavam intimamente ligadas: Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium – a fé é a substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se vêem”.
A fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão de vir, ela também nos dá algo do esperado e esta realidade presente nos oferece uma “prova” das coisas que ainda não se vêem. A fé atrai o futuro para dentro do presente, derramando nele uma presença daquilo do que “há de vir” e isso gera conforto. É humanamente impossível não sentir isso em algum momento da vida, e esta “coisa” que se espera, nos impele, afeta, mobiliza.
Todos nós esperamos algo, o problema não é este. O problema é onde depositamos a nossa esperança.
A partir dos tempos modernos, com a descoberta dos novos continentes e o avanço da ciência, a esperança humana teve seu eixo de fé modificado. Pensandores como Francis Bacon disseminaram uma nova modalidade de fé, que percebo estar muito presente em nosso dia-a-dia: a crença no progresso.
A sinergia entre ciência e prática e os avanços palpáveis das potencialidades humanas, nos aquecem com a promessa de um mundo novo, e melhor.
No reino da razão, saímos do 14 bis e chegamos ao metaverso. Graças ao progresso técnico e científico, a humanidade pode esperar pelos dias melhores que hão de vir.
Infelizmente, esta promessa, apesar de justificável, é irrealista. O progresso por adição só é possível no campo material. Quando observamos as novas tecnologias e invenções, verificamos claramente uma continuidade do progresso rumo a um domínio maior da natureza. Mas no âmbito da consciência ética e da decisão moral, não há possibilidade de adição porque a liberdade humana é sempre nova, e deve sempre, de novo, tomar as suas próprias decisões.
As nossas decisões do dia-a-dia não aparecem tomadas por outros. Podemos até nos basear em conhecimentos prévios e experiências de outrem, mas a liberdade nos desafia na escolha.
O tesouro moral da humanidade não está presente como estão os instrumentos que usamos, ele está presente como uma possibilidade, um convite a nossa liberdade. É por isso que desisti de esperar por um mundo melhor!
O reto estado das coisas humanas não poderá jamais ser garantido pelas estruturas técnicas, científicas ou políticas, por mais válidas que estas sejam. O homem permanece sempre livre e, dado que sua liberdade também é sempre frágil, não existirá o reino do bem definitivo.
Em que devemos depositar nossa esperança, então?
Eu creio na Luz para qual a estrela guia apontou o caminho dos reis magos. Esta novidade permite uma relação sempre nova e viva, que gera não um mundo novo, mas um homem novo.
A livre adesão ao Bem nunca acontece por si mesma. Cada pessoa, cada geração, deve dar a sua contribuição pessoal de ordenamento de liberdade e bem para o futuro. Para tanto, o foco deve estar no presente. Não será a ciência ou o progresso que vão nos redimir, apenas o Amor incondicional é capaz disso.
Quem encontrar a fonte deste Amor, encontrará a esperança que sustenta qualquer vida. O verdadeiro progresso humano é a comoção que nos move a começar e recomeçar sempre a jornada que nos aproxima do Amor.
Neste fim de ano não vou esperar um mundo melhor. Vou esperar estreitar minha relação com Aquele que não morre porque é a própria vida e, assim, escolherei viver mais um dia novo, melhor do que fui ontem.
