Sobre a Americanas e sobre melhores pessoas

Importante iniciar dizendo que há ainda muita coisa a ser investigada no caso da Americanas e não podemos, por enquanto, dizer que houve fraude.

Comecemos com uma história que um dia um colega professor me contou, e que, na minha opinião, descreve muitas das dinâmicas que acontecem no Brasil.

Imagine que você vai ter seu primeiro bebê e escolhe uma cor para o quarto da criança. Digamos que essa cor seja o verde. A pergunta seguinte é qual verde escolher. Você vai até a loja de construção e se depara com uma paleta gigantesca de verdes. O atendente da loja sugere que você leve uma pequeníssima amostra de cada um deles, graduados do mais tênue verde ao mais escuro, para que assim possa testá-los na parede do quarto.

Você chega em casa e pinta uma faixa de cada tom de verde ao longo da parede, do tom mais claro ao mais escuro. Ao comparar o primeiro tom com o segundo, percebe que parecem a mesma cor. Ao fazer o mesmo com o segundo e o terceiro tom, tem a mesma impressão. E assim sucessivamente. Porém, ao comparar o primeiro e o último tons de verde, sem um pingo de dúvida, você diz que são tons completamente diferentes.

Me parece que essa é a exata dinâmica dos processos de fraude e corrupção. Os desvios geralmente começam pequenos, inofensivos. Por ser adaptativo, logo tudo se parece algo normal ao ser humano. Aumenta-se a dose, em termos de velocidade ou intensidade. Quando se percebe que o primeiro tom de verde é completamente diferente do último, já é tarde demais. Está-se preso à dinâmica.

Vamos agora refletir sobre o que pode ter acontecido na empresa. Explico um pouco a operação de risco sacado. As empresas, por comprarem a prazo e quando têm crédito junto aos bancos, podem dar aos seus fornecedores a possibilidade de adiantar o recebimento das suas vendas. A operação de Risco Sacado é aquela pela qual o vendedor adianta os seus recebíveis com um banco e passa a ele todo o risco de inadimplemento do comprador. Por isso, é um produto vendido ao comprador e que beneficia seus fornecedores. Este produto toma a linha de crédito do comprador junto ao banco.

No caso da Americanas, há basicamente duas discussões em andamento em relação às inconsistências contábeis.

A primeira delas tenta responder se o comprador, no caso a Americanas, que agora deve ao banco e não mais ao fornecedor, deveria modificar o registro da operação no balanço de um passivo operacional (Fornecedores) para Dívida Bancária. A resposta é: depende.

Se a operação mantiver razoavelmente as características da compra em termos de prazo, custo e risco, não se faria necessária a alteração, embora seja de “bom tom” separá-la da conta pura de Fornecedores.
A pergunta que fica, neste caso, é se as operações bancárias são realmente tão semelhantes às operações comerciais a ponto de não precisar de reclassificação contábil. Se diferentes, se a natureza comercial da obrigação foi deturpada, deveria ser contabilizada como dívida bancária e não mais como um passivo operacional, o que implicaria numa modificação da alavancagem da empresa e, consequentemente, da sua perspectiva de risco.

A segunda discussão, que me parece mais grave, deve-se aos indícios de que os juros pagos ao banco nestas operações vinham sendo subtraídos da conta de Fornecedores, em vez de estarem sendo devidamente contabilizados numa conta de resultados, especificamente em Despesas Financeiras.
Se isto se confirmar, a empresa estaria apresentando lucros acima do que deveria, o que poderia dar margens a maiores dividendos, além de estar com um saldo de Fornecedores errado no Balanço.

Ainda há muito o que se apurar e muitas explicações a serem dadas. Porém, para mim, ainda é penoso conciliar um assunto de tão baixa complexidade contábil com um problema de tantos bilhões e uma recuperação judicial. Um evento como este, de uma empresa deste porte, leva junto com ela muitos negócios, muitas famílias. A empresa, além de todos os problemas de uma recuperação judicial, gerou para si um problema ainda pior, e talvez irreversível, de confiança e que está respingando não só nos gestores, mas também em seus acionistas e na cultura que estes promovem.

Uma cultura que busca o maior resultado possível no mais curto prazo possível pode ser geradora de um ambiente onde cruzar levemente a linha do que é legal (para não falar do que é certo) pode parecer algo corriqueiro e/ou necessário. E isso é extremamente perigoso.

Não sou contra eficiência, produtividade e resultado. Ao contrário, temos sempre que buscar a maior produtividade possível e o maior resultado possível, porém sempre respeitando certos limites, principalmente os limites do que é certo. Destes, não podemos nos esquivar, pois esse é o verdadeiro desafio de um gestor, principalmente num país como o nosso.

Enfatizo novamente que não estou dizendo que houve fraude, pois há muito o que se apurar ainda. Mas, se houve, não vejo como a dinâmica possa ter sido muito diferente daquela descrita acima.

A pergunta mandatória é como discriminar, quando há fraude, um tom de verde do outro? Talvez seja algo impossível de se fazer. Por isso, os mecanismos de controle usuais falham (auditorias, compliance, canais de denúncia etc.). Talvez não haja um jeito externo de lidar com este problema. No meu ponto de vista, e o que eu busco transmitir aos meus alunos, a única solução é aquela que efetivamente olha para o ser humano e que tem a intenção genuína de entender e trabalhar tudo o que ele carrega dentro de si. Ou seja, talvez a única solução seja trabalharmos para sermos, desenvolvermos e recrutarmos melhores pessoas.

Sobre
Oscar Simões
Diretor Acadêmico do ISE Business School, Diretor e Professor dos Departamentos de Economia e Direção Financeira, além de professor do Departamento de Direção Geral Doutorando em Economia | EESP-FGV, Mestre em Economia de Empresas | EESP-FGV, Graduação em Administração Pública | EAESP-FGV, PMD – Program for Management Development | IESE Business School Extensa experiência executiva na área financeira e de operações, lidando com produtos relacionados de tesouraria como câmbio, derivativos, commodities e renda fixa em São Paulo, Nova Iorque e Cidade do México. É também pesquisador do Centro de Macroeconomia Aplicada da EESP-FGV.

Deixe um Comentário