Uma Agenda para a Longevidade das Empresas Familiares Brasileiras

No Brasil, de acordo com dados do IBGE e do Sebrae, as empresas familiares correspondem a 90% das organizações em operação, empregando 75% da força de trabalho nacional e contribuindo com 65% do PIB. Contudo, uma pesquisa realizada pela consultoria PwC em 2020 revela que 75% dessas empresas encerram suas atividades após a sucessão dos fundadores pelos herdeiros. Não é à toa que em vários idiomas existe um equivalente ao dito popular “Avô rico, pai nobre, neto pobre”, como por exemplo “From shirt sleeves to shirt sleeves in three generations” em inglês, “Dalle stalle, alle stelle, alle stalle” em italiano, ou “Padre comerciante, hijo caballero, nieto pordiosero” em espanhol. Essa elevada taxa de insucesso evidencia a importância de uma gestão atenta aos desafios específicos enfrentados por essas empresas. Sabendo que um dos principais objetivos dos fundadores é deixar um legado para seus sucessores, apresentamos neste artigo os principais elementos de uma agenda estratégica que pode ajudar a alcançar esse objetivo de estar entre as empresas que conseguem se manter ativas na geração seguinte.

  1. Harmonização dos Papéis

Nas empresas familiares, os membros da família frequentemente desempenham múltiplos papéis, como acionistas, conselheiros, executivos e familiares (filhos e filhas, pai, cônjuge, irmãos e irmãs). Cada um desses papéis vem com responsabilidades distintas e pode gerar conflitos de interesse. Para garantir o sucesso da empresa, é essencial que os membros da família compreendam e respeitem essas diferenças. A definição clara de funções, a criação de ambientes diferentes para os distintos problemas, e uma comunicação aberta entre os membros da família ajudam a mitigar tensões e evitam decisões que priorizam interesses pessoais em detrimento do bem-estar da empresa.

  1. Distinguir entre Propriedade e Administração

Possuir uma empresa familiar não significa necessariamente ter as habilidades necessárias para administrá-la. Embora a propriedade da empresa possa ser transmitida por herança, a capacidade de gestão deve ser adquirida por meio de educação e experiência. Há um ditado popular que diz: “Você pode herdar a fortuna, mas não a capacidade de fazer uma fortuna”. É crucial que as famílias empresárias reconheçam essa distinção e estejam dispostas a contratar profissionais qualificados para a administração da empresa, quando necessário. Isso garante que a empresa continue a prosperar, mesmo quando a propriedade estiver nas mãos de membros da família que podem não ter formação em gestão.

  1. Harmonização das Relações Familiares e Profissionais

Manter um equilíbrio saudável entre as dinâmicas familiares e as demandas do negócio é um desafio constante nas empresas familiares. As relações familiares são marcadas por emoções e laços afetivos, enquanto as relações profissionais exigem decisões racionais e objetivas. Para evitar que conflitos pessoais prejudiquem o desempenho da empresa, é fundamental estabelecer regras claras sobre a participação dos membros da família nos negócios, além de incentivar uma cultura de profissionalismo dentro da organização. Enquanto a empresa necessita de um bom CEO (Chief Executive Officer), a família também precisa de um “CEO” — um Chief Emotional Officer. Enquanto o CEO da empresa busca como foco principal a construção de riqueza, o CEO da família tem como foco a felicidade. Na primeira geração, esse papel frequentemente é desempenhado pelas mães, mas na segunda geração é importante que alguém assuma essa responsabilidade de forma consciente. 

  1. Ordenar os Fluxos Econômicos e o Uso dos Ativos

As empresas familiares muitas vezes enfrentam o dilema de equilibrar as necessidades da empresa com as da família. Organizar os fluxos econômicos envolve criar uma estrutura clara para o uso dos recursos da empresa, garantindo que ambos sejam beneficiados de forma equilibrada. É fundamental priorizar os dois interesses, mas de maneira ordenada. Quando a empresa cresce e mantém-se sustentável, a família é a grande beneficiada; portanto, ao focar na empresa no curto prazo, os frutos são colhidos pela família no longo prazo. Nesse processo, podem surgir divergências entre os herdeiros — enquanto alguns preferem priorizar o crescimento, outros podem focar nos dividendos. Se não for possível uma conciliação, pode ser necessário que alguns membros sigam caminhos diferentes, desligando-se da empresa.

  1. Sucessão Planejada e Consolidada

A sucessão é um dos maiores desafios enfrentados pelas empresas familiares. A transição de liderança entre gerações pode ser uma fonte de tensão e, se não for bem gerida, pode levar à fragmentação da empresa. De fato, apenas 25% das empresas familiares sobrevivem à segunda geração, demonstrando a dificuldade de garantir a continuidade. Para evitar esse destino, é fundamental que a sucessão seja planejada com antecedência, estabelecendo critérios claros para a escolha do sucessor e um plano de desenvolvimento para prepará-lo para o papel de líder. A comunicação aberta sobre o processo de sucessão também é crucial para garantir que todos os membros da família estejam alinhados com as decisões tomadas.

  1. Profissionalização da Empresa

A profissionalização da empresa familiar é essencial para garantir sua longevidade e competitividade. Isso envolve a implementação de práticas de gestão profissional, a contratação de executivos qualificados e a adoção de processos de tomada de decisão baseados em dados e análises. A empresa familiar deve ser tratada como qualquer outra empresa no mercado, com foco em resultados e eficiência. Além disso, a profissionalização ajuda a separar as questões familiares das empresariais, promovendo um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo.

  1. Institucionalização da Governança

A criação de estruturas formais de governança, como conselhos de administração e comitês familiares, é essencial para a institucionalização da empresa. Enquanto os conselhos de administração permitem direcionar estrategicamente a empresa e evitar os grandes riscos do negócio, quando se cria uma boa governança familiar consegue-se abordar temas importantes para a família empresária como por exemplo os aspectos legais, patrimoniais, psicológicos e morais (valores). Essas estruturas promovem a transparência, a responsabilidade e a continuidade, garantindo que as decisões sejam tomadas com base em princípios sólidos e alinhados com a visão de longo prazo da empresa e da família. A institucionalização também facilita a sucessão, ao criar mecanismos de liderança que não dependem exclusivamente de indivíduos, mas sim de processos e políticas bem estabelecidos.

  1. Resolução de Conflitos

Conflitos são inevitáveis em qualquer empresa, mas podem ser especialmente desafiadores em empresas familiares, onde as emoções e os laços pessoais estão profundamente entrelaçados com as questões de negócios. A habilidade de resolver conflitos de maneira construtiva é crucial para a harmonia e a continuidade da empresa. Isso pode ser alcançado por meio de mediação, diálogos francos e a implementação de acordos familiares que estabeleçam como os conflitos devem ser abordados e resolvidos.

  1. Fortalecimento da Cultura Familiar e Empresarial

A transmissão dos valores fundamentais da família e da empresa é essencial para a construção de uma identidade forte e para o compromisso dos membros da família com o negócio. Esses valores devem ser claramente definidos, comunicados e incorporados nas práticas diárias da empresa, ajudando a criar unidade (identidade) e compromisso (confiança) entre todos. Além disso, é importante que a cultura familiar e empresarial evolua ao longo do tempo, adaptando-se às mudanças no mercado e nas dinâmicas familiares, enquanto preserva os princípios que garantiram o sucesso da empresa até o momento.

 

Em resumo, considerar essa agenda é fundamental para que as empresas familiares não apenas sobrevivam, mas também prosperem ao longo das gerações. As empresas familiares possuem vulnerabilidades que, uma vez bem cuidadas, as tornam superiores a outras empresas, mas se não trabalhadas as destroem rapidamente. Cuidar da agenda aqui proposta exige dedicação, comunicação clara e uma abordagem profissional em todas as áreas do negócio e da família. Embora o caminho possa ser desafiador, os benefícios de garantir a continuidade e o sucesso de uma empresa familiar são imensuráveis, principalmente para a família fundadora, que poderá ver seu legado transmitido para as gerações seguintes, mas também para a sociedade em geral, pois ela também se beneficia dos serviços e produtos fornecidos por uma empresa bem gerenciada.

Sobre
Marcos Citeli
Diretor e Professor dos Departamentos de Contabilidade e Controle e Análise de Decisões. Professor de Negociação, Empresa-Família e Direção Geral. Membro do Núcleo Consensus de Estudos em Negociação. Doutorando e MBA IESE Business School Certificado pelo International Faculty Program IESE Business School. Mestre em Sistemas PUC-RJ Graduação em Engenharia de Sistemas IME – Instituto Militar de Engenharia Atua com o consultor de empresas mciteli@ise.org.br

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