IA: o Líder Centauro e a Teoria do Ator-Rede

O futuro da liderança não reside na substituição do humano pela máquina, mas sim na sinergia entre os dois.

O conceito de “líder centauro”, apresentado por Ethan Mollick, professor da Wharton School, resume bem essa ideia: trata-se de um executivo que une suas habilidades humanas — como julgamento, sensibilidade e criatividade — ao poder analítico e automatizador da inteligência artificial (IA) para alcançar resultados exponenciais.

Hoje, executivos contam com ferramentas de IA generativa capazes de analisar milhões de dados em segundos, redigir textos, criar imagens e projetar cenários. Porém, existe um equívoco comum: acreditar que basta “instalar” IA para colher resultados. O verdadeiro diferencial está em saber como e onde a IA pode atuar, potencializando o valor humano sem sufocá-lo.

Mollick usa a metáfora do centauro porque executivos que fazem bom uso da IA conseguem multiplicar suas capacidades. Durante minha pesquisa de doutorado usei uma perspectiva de análise que agora parece se adequar perfeitamente a essa multiplicação de capacidades. Trata-se da Teoria do Ator-Rede (Actor-Network Theory – ANT), desenvolvida por Michel Callon e Bruno Latour. Segundo a ANT, pessoas, algoritmos, relatórios, dados, máquinas, regras e documentos são todos atores que formam redes. Nenhum elemento é apenas uma “ferramenta”; todos influenciam e são influenciados. A IA, portanto, não é só um software: ela atua no contexto, molda decisões, altera fluxos de trabalho e também é moldada pelo uso humano.

Na visão da Teoria Ator-Rede, a IA não é só um recurso tecnológico. Ela se torna um ator na rede organizacional, influenciando e sendo influenciada, disputando sentidos e modificando fluxos de trabalho.

Para o líder-centauro, é fundamental entender que não basta analisar o que a IA pode fazer tecnicamente. É preciso refletir sobre como sua introdução reorganiza relações de poder, responsabilidade e significado dentro da empresa.

Mollick fala da IA como “parceira criativa”. A ANT mostra que, nesse estágio, a IA deixa de ser apenas operacional e passa a integrar redes estratégicas que influenciam a identidade e o rumo da organização.

Um roteiro prático para iniciar essa análise e aplicação.

1. Mapeie Processos Críticos

Faça um mapeamento dos fluxos de trabalho (Value Stream Mapping).
Identifique: Atividades manuais e repetitivas. Processos com filas, retrabalhos ou muitos erros. Prazos longos ou etapas que exigem muito esforço humano.
Exemplos: Relatórios mensais que exigem compilar dados de várias planilhas, e-mails padrões, revisões de contratos.

 2. Defina Hipóteses de Ganho

O que a IA pode gerar? Economia de tempo? Redução de erros? Melhoria na qualidade ou uniformidade? Respostas mais rápidas ao cliente?
Se não houver hipótese clara de ganho, não vale implementar só por modismo.

3. Construa Pequenos Pilotos

Escolha tarefas bem definidas e de baixo risco, como: geração automática de relatórios. Criação de rascunhos de textos ou e-mails. Resumos automáticos de documentos. Classificação ou análise de sentimentos em feedbacks. Comece pequeno, com MVPs (Mínimos Produtos Viáveis). A complexidade da IA exige espaço para testes e aprendizados.

4. Mensure e Ajuste

Defina métricas objetivas: horas economizadas. Redução de erros. Velocidade de entrega. Colete feedback qualitativo: as pessoas confiam no que a IA gera? O trabalho ficou mais fácil ou mais difícil?
Sem medições claras, há risco de investir em IA sem retorno concreto.

5. Enxergue a IA como Ator na Rede

Pergunte-se: quem ou o que será afetado pela IA? Quais papéis podem mudar? Quem pode se sentir ameaçado? Quais atividades ganharão mais agilidade ou transparência?
Essa visão evita surpresas desagradáveis, como resistência silenciosa ou impactos não previstos na dinâmica organizacional.

Usar IA para eficiência operacional é só o começo. A verdadeira revolução acontece quando executivos passam a usar a IA como parceira para pensar o futuro: simular cenários de mercado, explorar novos modelos de negócio, gerar insights sobre clientes ou antecipar movimentos da concorrência.

E você? Já identificou onde a IA generativa pode atuar no seu negócio hoje? Sua empresa está pronta para dar o salto da eficiência para a estratégia com a IA?

Sobre
Ricardo Engelbert
Diretor dos Departamentos de Empreendedorismo, Operações, Tecnologia e Informação e Professor de Inovação e Direção Geral Lecturer do IESE. AMP – Advanced Management Program ISE-IESE Business School. Doutorado em Administração Universidade Positivo MBA em Gestão Executiva | FGV Graduação Engenharia Elétrica Universidade Tecnológica Federal do Paraná Carreira Executiva como Diretor de Unidade de Negócios Internet da GVT, Diretor de Serviços Internet, Diretor de Produtos e Novas Mídias. ricardo.engelbert@ise.org.br

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