Responda rápido, sem pensar demais: para que serve o freio em um automóvel? Se você é como a maioria das pessoas a quem faço essa pergunta, há cerca de 72% de chance de ter respondido: “para frear”. Não desanime, mas a sua resposta é quase uma tautologia. Não se pode dizer que esteja errada em termos conceituais, mas, sem dúvida, não agrega nenhum valor. Não se sinta mal: em um grupo de cem pessoas, você está muito bem acompanhado. Outras respostas rápidas costumam ser “para não bater”, “para não nos machucarmos” — certamente verdadeiras, mas ainda são apenas consequências da função do freio, não sua utilidade principal.
Mudemos o enfoque. Imagine que, ao entrar no seu carro, alguém lhe informe que o sistema de freios praticamente deixou de funcionar e conserva apenas 5% da sua capacidade. Se não houver alternativa a não ser dirigir até o seu destino, o que mudará na experiência de condução? Aqui a resposta é simples e bastante evidente: quase todo mundo responde que a viagem será muito mais lenta, quase a passo de pedestre. Exato, essa é a resposta adequada.
Agora, pense no extremo oposto. Se, quando você quase não tem freios, a velocidade a que pode dirigir é mínima, superlenta, o que aconteceria se, ao entrar no carro, lhe dissessem que o sistema de freios é tão potente que, ao menor toque no pedal, o veículo para instantaneamente, sem qualquer inércia? Em que mudaria o seu modo de dirigir? É impossível não responder que a consequência direta seria a capacidade de se deslocar a uma velocidade muito superior à habitual.
Voltemos ao início. Peço novamente que responda rápido, sem pensar: para que servem os freios no automóvel? Provavelmente você respondeu agora como praticamente todos os leitores que chegaram até aqui:
Para aumentar a velocidade.
Para assumir mais riscos.
Para fazer o que outros, com freios piores, simplesmente não podem fazer.
O freio e os limites
É muito comum admirar pessoas que agem com segurança, que demonstram firmeza em situações complicadas, que, enquanto tudo treme ao seu redor, permanecem firmes na direção desejada. Às vezes pensamos que são pessoas especiais, com uma capacidade inata de prevalecer na adversidade e no perigo. Pode haver algo disso. Outras vezes pensamos que pecam por temeridade, que nem sequer percebem os riscos que as ameaçam. Há quem se comporte assim de modo irresponsável, mas, nesses casos, são indivíduos que normalmente não duram muito.
Voltando ao primeiro caso, muitas vezes não percebemos que essas pessoas que agem com essa segurança invejável costumam compartilhar outra característica, mais difícil de notar para quem não é um observador atento. Mas, uma vez que se presta a devida atenção, o traço diferenciador se torna evidente.
Refiro-me a pessoas que, em sua maneira de conduzir a própria vida, definiram limites muito claros e mandatórios. Linhas vermelhas que indicam por onde evitar transitar, verdadeiros guard rails que as impedem de sair da estrada — e que, justamente por isso, lhes permitem fazer curvas em alta velocidade.
Esses limites são, antes de tudo, pessoais — próprios daquilo que cada um entende como bom e daquilo que julga mau. Bom e mau considerados como conveniente e não conveniente para aquilo que desejam alcançar. Sabem que, independentemente das circunstâncias, existem princípios cujo abandono nunca termina bem, ainda que, no presente, ofereçam um caminho mais fácil ou menos penoso.
Também sabem que o bom e o mau devem ser aplicados ao conhecimento do seu negócio, da sua profissão, do seu papel concreto em qualquer organização. Como compreendem muito bem o que acontece ao seu redor — concorrentes, fornecedores, clientes e ambiente — rapidamente desenham as zonas nas quais convém se mover e, com igual sagacidade, evitam abandoná-las. Onde alguém vê apenas um grande campo aberto, eles enxergam cercas finas, quase invisíveis, que delimitam o terreno de jogo.
Tudo isso permite agir com grande segurança. Pense naquele médico que atua em uma situação crítica logo após um acidente de trânsito. Sangue, gritos, poucos recursos, tensão. É preciso agir. Se são bons médicos, não param para refletir longamente.
Agem. São vistos como seguros e decididos. Podem agir assim porque têm muito claro o que é importante não fazer, sabendo que todo o restante está dentro do seu campo de validade. Sabem o que é crucial evitar para não causar um dano grave, o que lhes permite arriscar em todo o resto. Não há garantia de que a vida será salva, mas é certo que têm a possibilidade de fazer o melhor esforço possível, dadas as circunstâncias existentes.
Freios não existem para parar um carro.
Existem para permitir que ele ande rápido com segurança.
Na direção de organizações, é vital oferecer àqueles que recebem autoridade e autonomia limites claros que lhes permitam ganhar segurança. Limites que digam “por aqui não”, mas que não precisem dizer “por aqui sim”. Dirigir é decidir.
E decidir exige autonomia. No entanto, um excesso dessa autonomia termina levando a dúvidas e lentidão.
Seguramente, quem está lendo estas linhas já viveu um primeiro dia de trabalho: nova empresa, novos ambientes, nova responsabilidade — tudo novo. Ainda que lhe tenham dado um manual de tarefas, escrito ou não, e provavelmente também um código de conduta, no momento de agir, de decidir, muitas dúvidas surgiram. É impossível que isso não aconteça.
Vejamos agora dois cenários alternativos. No primeiro, disseram-lhe: “Você é o chefe desta área, tem um bom currículo, experiência, atue para alcançar tais objetivos, confiamos em você.” No segundo, disseram o mesmo, mas acrescentaram ao final: “O que você nunca pode fazer é A e B. Fora isso, vá em frente.”
Apenas algumas palavras de diferença — parece tudo muito parecido, mas é muito diferente. Quem recebeu o segundo mandato atuará dentro do seu âmbito sabendo que, enquanto não ultrapassar a linha A ou B, todo o restante são erros e falhas dentro do tolerável — pequenos solavancos ou desvios de percurso. Quem recebeu o mandato “mais amplo”, na realidade recebeu o mais restritivo: embora teoricamente possa fazer “tudo”, duvida e se questiona se tal ou qual erro não se tornará algo intolerável.
Quando dizemos a alguém o que deve evitar, estamos dando enorme liberdade, pois tudo o que está deste lado da linha passa a ser patrimônio do seu critério e da sua ação prudente. Quando não estabelecemos nenhuma linha vermelha, a mensagem pode parecer de grande liberdade, mas, na prática, estamos retirando barreiras de segurança que, muito provavelmente, a própria pessoa começará a “imaginar” em sua reflexão solitária.
Que nunca nos faltem bons freios
Os freios são limites que, em nível pessoal, nos permitem andar pela vida com enorme segurança, assumindo riscos que outros não entendem como e até admiram em silencioso respeito. Quando nos cabe dirigir, ajudar os nossos com limites claros os capacita a fazer muito mais, pois sabem que, fora dessas barreiras, o espaço de ação que lhes resta está aberto para correr em alta velocidade.
Encerro com uma reflexão muito pessoal: você quer fazer coisas grandes, desafiadoras, perigosas? Quer que sua equipe assuma o que lhe cabe e se arrisque para alcançar futuros valiosos? Lembre-se do que os freios podem fazer por você. Invista neles. Dedique tempo, esforço e aconselhamento para construí-los. A velocidade raramente depende do acelerador. Depende da qualidade dos freios. Eles lhe trarão muito mais retorno do que cair na ingenuidade de pensar que a velocidade depende simplesmente do acelerador.

