A recente escalada dos preços do Bitcoin (que atualmente se encontra em sua máxima cotação histórica, acima dos 50 mil dólares) trouxe consigo uma nova onda de interesse geral sobre a moeda eletrônica e sobre a própria tecnologia do Blockchain. Como ocorreu em 2017, será que estamos em uma nova bolha das criptomoedas?
Em dezembro de 2017, o Bitcoin chegou a ser cotado acima dos 19 mil dólares, para voltar ao patamar de 3,5 mil dólares cerca de um ano depois: uma desvalorização de mais de 80% que machucou diversos investidores e fez muitos se questionarem se a moeda e a tecnologia por trás dela tinham qualquer futuro de médio ou longo prazo.
Antes de mais nada, é importante separarmos esta discussão em duas. Por um lado, a cotação do Bitcoin, e das demais criptomoedas, enquanto ativo financeiro é alvo de interesse e de especulação por muitos: será simplesmente mais uma bolha financeira, como já tivemos tantas desde as tulipas na Holanda do século XVII, ou será o começo de um novo ciclo de valorização expressiva da criptomoeda a médio e longo prazo? Outra discussão que pouco tem a ver com esta é o potencial uso do Blockchain, tecnologia por trás do Bitcoin: seria simplesmente mais um hype ou ela de fato pode oferecer novas (e melhores) soluções para problemas importantes?
Em 2008, quando surgiu o Bitcoin, era impossível dissociá-lo do Blockchain. Em seu famoso white paper, Satoshi Nakamoto (sobre quem pouquíssimo se sabe, há inclusive quem diga que não se trata de uma pessoa, mas sim de um grupo de desenvolvedores) descrevia uma solução inovadora para um antigo problema de criptografia: o double spending (gasto duplo). Essa solução permitia a criação de um sistema monetário totalmente digital e livre de uma autoridade monetária central. Em uma rede de Blockchain, a necessidade de uma instituição centralizadora desparece porque cada nó da rede passa a enxergar e a ter um backup histórico de todos os registros das transações que já foram realizadas, mesmo aquelas que não lhe envolvam diretamente. Se Pedro quer enviar dez Bitcoins a Paulo, cada participante da rede pode dar testemunho de que de fato Pedro tem (ou não) dez Bitcoins em sua carteira virtual. Se a maioria dos membros da rede confirmam que Pedro tem os Bitcoins de que quer dispor, permite-se que ele transfira seus Bitcoins a quem desejar, e fica registrada a transação por todos os membros desta rede.
Além da ausência de uma autoridade monetária central, o Bitcoin também garante uma característica muito desejada para qualquer coisa que se proponha a servir de moeda: a escassez. A cada nova transação registrada são criados alguns Bitcoins – para remunerar aos mineradores, responsáveis pela criação e criptografia dos blocos de dados que registram estas transações. Porém, o número de novos Bitcoins emitidos a cada bloco minerado diminui ao longo do tempo, o que garante que jamais haverá mais do que 21 milhões de Bitcoin em circulação. Em média, a cada quatro anos, o número de Bitcoins criados para remunerar os mineradores por cada bloco de dados cai pela metade – eles recebem uma quantidade cada vez menor de uma coisa que é cada vez mais escassa e, portanto, mais valiosa. A lógica por trás da valorização do Bitcoin é bastante simples: ao limitar a sua oferta, um aumento da demanda por ela necessariamente irá proporcionar uma cotação cada vez maior, fazendo da moeda digital uma reserva de valor a longo prazo.
Fora do universo das criptomoedas, há muitas outras aplicações potenciais para uma tecnologia que permita um registro descentralizado, com atualizações constantes e em tempo real, e que seja virtualmente livre de fraudes. Por exemplo, em agosto de 2017 foi lançado o IBM Food Trust, uma iniciativa que se propõe a atacar a transmissão de doenças por meio de alimentos.
Segundo estimativa da Organização Mundial, uma em cada dez pessoas adoece devido a doenças transmitidas por alimentos a cada ano. Nos EUA, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças estimam que cerca de 48 milhões de pessoas adoecem, 128 mil são hospitalizadas, e 3 mil morrem anualmente em função de doenças transmitidas por alimentos. Para endereçar o problema, foi desenvolvida uma rede em Blockchain para trazer maior visibilidade e rastreabilidade de insumos em toda a cadeia de suprimentos de alimentos. Fazem parte desta rede diversos cultivadores, processadores, atacadistas, distribuidores, fabricantes e varejistas.
Todos os participantes têm acesso a um registro permutado, imutável e compartilhado de proveniência de alimentos, dados transacionais, detalhes de processamento, dentre outras informações. Frank Yiannas, então vice-presidente de Food Safety do Walmart, comentou em uma entrevista concedida em 2018 que a gigante havia tentado diversos sistemas diferentes para trazer maior transparência para a origem dos alimentos que comercializava, e nenhum deles havia sido capaz de trazer os resultados que a empresa gostaria. Yiannas, contudo, se mostrou bastante animado com o uso do Blockchain na cadeia e chegou a afirmar que era o “equivalente ao rastreamento da FedEx para alimentos”. A IBM Food Trust recebeu diversos prêmios desde então.
Outro exemplo de uso do Blockchain é a OriginalMy: pioneira no Brasil no uso dessa tecnologia, ela oferece, dentre outros serviços, a criação de BitRegistros. Estes registros podem ser usados para assinar, registrar e certificar documentos digitais. Os potenciais usos são inúmeros: artistas podem garantir o registro de autoria de uma composição, pintura ou outra obra de arte; contratos e acordos diversos podem ser firmados por e registrados em Blockchain, garantindo um registro seguro e imutável não somente das assinaturas, mas também do conteúdo dos contratos ou acordos; dentre outras aplicações.
É impossível prever com segurança o preço do Bitcoin (ou de qualquer ativo financeiro) no futuro próximo ou distante. Ainda que haja muita euforia com a possibilidade de uma moeda que dispense a necessidade de um regulador ou Banco Central, o Bitcoin ainda é visto como um ativo especulativo por muitos, e seu sucesso a longo prazo passa pela sua adoção, seja como moeda ou como reserva de valor, por uma fatia maior das pessoas e instituições que ainda o vêem com grande ceticismo. Por outro lado, as possíveis aplicações do Blockchain englobam registros cartoriais, combate à propagação de notícias falsas, soluções para eleições e consultas populares, rastreabilidade da cadeia de suprimentos, e muitos outros usos. O escopo de soluções que pode provir de uma tecnologia que permita fazer um registro de dados de forma descentralizada, imutável e transparente é enorme! O Blockchain está ainda em seu nascedouro, mas seu potencial impacto sobre os negócios, e sobre a sociedade como um todo, certamente vai muito além do universo das criptomoedas.
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