A arte de estar: a rebelião da atenção começa nos sentidos

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No último dia 30 de abril de 2026, o ISE Humanidades realizou sua Season Lecture com o professor convidado Rafael Ruiz. O tema A Arte de Estar: A Rebelião da Atenção na Era da Dispersão abriu uma frente incômoda para o vocabulário corporativo. Vivemos falando de foco, mas raramente de sentidos. E é justamente aí que está o problema. Foco não é uma alavanca que se aciona, é o resultado de sentidos bem educados. Quando os sentidos estão embotados, mais foco apenas amplia a miopia.

Antes do foco, os sentidos

A filosofia clássica formulou o princípio com clareza: nada está na inteligência que não tenha passado primeiro pelos sentidos. Os sentidos são a ponte com o real, e quando estão bem treinados, não param na superfície. Eles penetram, intuem, leem o que não foi dito. Quando estão atrofiados, a pessoa pode até ter muitos dados, mas decide mal, porque deixa de perceber o que está abaixo do que se vê.

Para descrever o quadro atual, Rafael Ruiz recorreu ao filósofo italiano Pierangelo Sequeri, em uma síntese contundente:

Temos os olhos cheios de imagens e nos tornamos cada vez mais míopes; estamos completamente envoltos por sons e não ouvimos mais nada. O perfume das coisas é uma vaga lembrança: consumimos substâncias que tornam o olfato inútil. Tocamos tudo (no sentido de manusear sem cuidado), e não conseguimos mais ser ‘tocados’ por nada: a intimidade da alegria, a intimidade da dor, nossa e alheia, só as conhecemos como acessórios da propaganda que quer nos vender algo.

Substituímos os sentidos por próteses digitais, continuou o professor, e os sentidos perdem a função para a qual existem. A tela não foi feita para revelar a intimidade do real, e o real não cabe numa tela. O professor, então, evocou um paradoxo histórico para nomear o que está em jogo. Descartes quis separar razão e sentimentos, objetivo e subjetivo, e não conseguiu, porque essa cisão não é própria do humano. Ele só conseguiu danificar a percepção. O que Descartes não conseguiu, o mundo digital realizou: a separação está consumada na prática diária, e o preço é a sensibilidade.

Estética é o contrário de anestesia

Depois desse diagnóstico, Rafael Ruiz fez a pergunta: “O que pode nos ajudar a sair dessa situação?”. E a resposta tem a ver com uma palavra.

A palavra estética vem de aisthesis, “percepção” em grego. Seu oposto é anestesia. Educar a sensibilidade estética é, antes de qualquer discussão sobre arte, recuperar a capacidade de perceber o que está além da superfície. É aqui que entra a distinção entre enigma e mistério. O enigma se resolve, o mistério se intui. O ser humano contemporâneo, treinado para controlar e mensurar tudo, perdeu a paciência com o que não se domina. E justamente por isso, perdeu o acesso ao que mais importa nas decisões: o íntimo das coisas e das pessoas.

Quando os sentidos estão despertos, captamos o que ninguém disse. Somos capazes da intuição, que não é uma sensação passageira, mas como indica sua etimologia: “ver dentro”, intus videre. Percebemos, com Hamlet, quando há algo de podre no reino. Essa capacidade de ver dentro, de si e dos outros, faz toda a diferença para a liderança.

Três sensibilidades para reaprender

A partir dessa reflexão, Rafael Ruiz desdobrou três planos da sensibilidade que precisam ser recuperados juntos.

A sensibilidade relacional coloca o outro no centro do meu universo. O logos grego não significa apenas razão, significa palavra, ou seja, relação. Quem reduz o trabalho a pensamento solitário não precisa de ninguém. Quem o entende como palavra precisa do outro. As empresas que vão atravessar o século serão as que apostarem nisso, fazendo dos colaboradores protagonistas reais e não personagens de um organograma.

A sensibilidade moral é a capacidade de perceber o que é certo, justo e adequado. Não por acaso, “sensato” e “insensato” derivam de sentidos. A pessoa sensata percebe a realidade porque seus sentidos estão organizados para isso. Aqui Ruiz convocou Dostoiévski. No Grande Inquisidor, o russo já apontava o que talvez seja o medo mais profundo do humano contemporâneo: decidir sobre o certo e o errado. Preferimos terceirizar a decisão. Mas nenhuma inteligência artificial será sensata, porque sensatez não é cálculo, é sensibilidade educada.

A sensibilidade estética é a mais negligenciada e talvez a mais decisiva. É ela que permite enxergar beleza num mundo que parece deformado. Apoiando-se em Byung-Chul Han, o professor lembrou que a cultura do excesso e do consumo devorador atrofia a atenção. E recolocou uma tese desconfortável para uma cultura obcecada por entrega impecável: a beleza do real é sempre um pouco imperfeita. A rosa é bela porque está na roseira, com espinho e perfume. A flor artificial é mais perfeita, mas não cheira, não fere e não emociona. Foi essa intuição que levou Ruiz a uma referência inesperada, Matrix, lembrando que o ser humano não foi feito para viver na perfeição.

Reaprender a estar

Os sentidos saudáveis cumprem ainda uma função silenciosa: dão a medida. Eles avisam quando comemos demais, quando bebemos demais. As telas, ao contrário, removem a percepção do excesso. Ficamos horas ligados sem registrar o cansaço, e a velocidade prolongada vira violência sobre a percepção. O resultado é uma insensibilidade que se confunde com profissionalismo, mas que, no fundo, atrofia o discernimento.

Ao final, em meio às perguntas da plateia, ficou claro o convite. Reaprender a estar não é nostalgia, é condição para liderar com clareza no ruído. Antes de abrir o laptop, o professor sugeriu, ouça o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven, ou Nessun Dorma de Turandot. A beleza educa os sentidos, e sentidos educados decidem melhor.

A arte de estar começa quando se aceita que liderar não é entregar mais rápido, mas perceber mais fundo. E que a atenção, antes de ser foco, é presença.

Quer aprofundar? O programa Ética & Literatura do ISE Humanidades promove a descoberta do humano através de clássicos que iluminam dilemas atuais da liderança. A próxima obra a ser estudada é a Odisseia, de Homero.

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