Peculiaridades da governança de empresas familiares

Empresas cuja propriedade é controlada por uma família, têm em sua governança temas que podem gerar impactos significativos na qualidade do negócio. O que se sabe, é que empresas bem administradas e longevas apresentam uma boa governança no tripé: Gestão, Propriedade e Família.

A Gestão é composta pelo Conselho de Administração – quando ele é constituído – e pelo Time Executivo.

O Conselho de Administração – como órgão colegiado – deve entre tantos temas, estabelecer a Visão, a Missão, as diretrizes estratégicas; os níveis de risco; as políticas várias como, por exemplo,  de inovação, de remuneração, de relacionamento com fornecedores, etc.; definir, cuidar e disseminar a cultura pretendida; garantir a atuação com responsabilidade social e acompanhar a implementação da estratégia e cumprimento do orçamento por parte do time executivo.

Já o Time Executivo deve, por sua vez, desenvolver a estratégia em linhas com as diretrizes estabelecidas, detalhar o plano de execução, entregar os resultados acordados e atuar com total transparência com o Conselho, de forma que as mudanças e melhorias aconteçam de forma apropriada.

Aos proprietários cabe, entre outros temas, nas assembleias de acionistas e nos Conselhos de Sócios, aprovar as contas dos administradores; decidir sobre destinação do lucro e distribuição de dividendos; eleger ou destituir membros do Conselho de Administração; deliberar sobre fusões, aquisições, venda e/ou liquidação da sociedade; aumentar ou reduzir  o capital social e estabelecer o grau de alavancagem e endividamento da empresa.

Até aqui empresas familiares e não familiares não diferem na sua Governança.

Agora, as diferenças: nas empresas familiares é preciso definir normas e condutas que não venham a interferir negativamente no negócio e na sua sobrevivência e que estão ligados à Governança da Família, que procuraremos detalhar abaixo.

O órgão responsável pela governança da família é o Conselho de Família e algumas de suas atividades mais importantes são:

  • Estabelecimento de atividades para integração e união familiar, promoção dos valores e do legado da família.
  • Criação de canais de comunicação entre o Conselho de Família e os outros órgãos de governança.
  • Definição sobre participação de familiares na gestão e definição de critérios para que isto aconteça, seja no Conselho ou no Time Executivo.
  • Plano e possível financiamento para formação educacional ou executiva de acionistas, conselheiros e, eventualmente, de executivos familiares.
  • Definição de temas ligados à responsabilidade social da família que devem refletir na empresa.
  • Mediação de conflitos.
  • Definição de elementos importantes do acordo de sócios como, entre outros, a deliberação sobre a relação entre os membros da família e destes com a propriedade da empresa, transferência de ações, saída de sócios e liquidez para compra de participação, herança, etc.

Por último, e talvez o mais importante e delicado, seria a coordenação do plano de sucessão do fundador e, no futuro, de seus sucessores familiares executivos.

A sucessão do fundador é em geral a mais complicada pelos vieses cognitivos que o mesmo carrega. Entre estes, está a crença da falta de capacidade de liderança e de gestão, real ou subjetiva, dos sucessores familiares, que gera no fundador o medo de que o negócio venha a fracassar e que ele, portanto, venha a ter problemas financeiros na sua aposentadoria.

Este assunto deve ser tratado com muito tato e exige, às vezes, a ajuda de consultores externos que auxiliem no tema e no fortalecimento dos órgãos de governança da Gestão, especificamente na formação de um Conselho de Administração com a presença de conselheiros externos independentes e comprometidos com o sucesso e sustentabilidade de longo prazo do negócio.

São as particularidades das empresas familiares que tornam a sua governança bastante específica quanto à atenção a seus efeitos profundos nos resultados do negócio.

 


Uma empresa de controle familiar nasce de uma história, não apenas de uma ideia. Nasce em uma família e passa a fazer parte dela.

Para isso, o Programa Desafio da Família Empresária foi desenvolvido para o núcleo da família empresária: os responsáveis pelas decisões indelegáveis.

Um programa criado pelo ISE Business School com apoio da FAAMILY Advisory e de membros de famílias empresárias que, através de casos, conferências e temas próprios para empresas familiares os participantes irão desenvolver conhecimentos, competências e atitudes necessárias para suas realidades.

Sobre
Fernando Bagnoli
Diretor e Professor do Departamento de Direção Geral Lecturer | IESE Business School Pós-Graduação e Especialização pelo IESE Business School / Kellogg Graduate School of Management / Wharton Business School / University of Michigan´s Ross School of Business Mestre em Engenharia Escola Politécnica da USP Engenheiro Escola Politécnica da USP Carreira executiva como Presidente da Quest International para a Ásia Pacífico e América Latina, Presidente da Steelcase do Brasil e Presidente da Umbro International para a América Latina. É membro independente de Conselhos de Administração fbagnoli@ise.org.br

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