Mostra-me QUEM és, e direi QUEM te seguirá

Quanto mais progredimos numa organização, mais dependemos de outras pessoas para realizar nossas ações. Quando era mais jovem, ouvi Jack Welch dizer: “No momento em que você se torna um líder, as coisas deixam de ser sobre VOCÊ e passam a ser sobre os OUTROS”.

Hoje, trabalhando com Negociação e Resolução de Conflito com muitos executivos brasileiros, consegui compreender tal colocação de Welch. A Liderança é um reconhecimento do outro, disposto a te seguir, não um cargo que se ocupa.

Experienciei a dificuldade de muitos líderes em mobilizar pessoas dentro de uma organização. Sobre este tema  o Grão Chanceler da Universidade de Navarra, Mons. Fernando Ocáriz, relembrou no evento de celebração dos 60 anos do IESE Business School deste ano, que: “…a empresa é, pois, uma expressão da sociabilidade da pessoa, que necessita da relação com outras pessoas para satisfazer suas necessidades, para dar sentido ao seu trabalho, para prestar um serviço aos demais e para a sociedade, para conhecer a si mesmo e alcançar sua plenitude como pessoa…”.

É nesta teia intrincada e complexa de relações humanas, que a liderança é desafiada a convencer outras pessoas a aderir livremente ao que se propõe. Quando o outro não aceita de forma voluntária, sua adesão é frágil e, por isso, pouco sustentável.

A comunicação é a forma humana de expressar aquilo que se pensa. A palavra “dizer”, que vem do verbo latim “dicere”, engloba as dimensões racionais e sociais da pessoa. Apenas um ser social é capaz de dizer com plenitude; com um conteúdo refletido interiormente e uma expressão exterior livremente modulada. Só faz sentido dizer se existe um outro a quem se deve dirigir. Por isso, o ser humano, e especialmente os líderes, são seres que dizem.

Para conseguir convencer outras pessoas é preciso saber “dizer bem”. Um líder, quando se manifesta, tem suas palavras repetidas, transmitidas, comentadas e/ou criticadas por muitas outras pessoas na empresa. A retórica dos gregos Aristóteles e Cícero, ainda é o principal campo de conhecimento da comunicação, que vem servindo como base para produções recentes sobre discurso, publicidade, política, gestão e educação.

Os atenienses definiram a retórica como a arte de persuadir por meio da palavra. Mas esta definição é insuficiente, porque pode-se persuadir outras pessoas para enganá-las. Conhecemos aduladores em nosso ambiente de trabalho e corruptos em nosso congresso para comprovar isso.  Por isso, Aristóteles (384-322 a.C.) definiu a retórica como Ars bene dicendi ou a Arte do Bem Dizer.

Não existe “bem dizer”, sem retidão de pensamento. O advérbio latino bene designa as virtudes técnicas do discurso, mas também a mores oratoris; os hábitos do orador. A definição aristotélica prevê um duplo significado para a arte de persuadir por meio da palavra: técnico e moral.  

Sócrates e Platão acusavam os sofistas de preocupar-se apenas com a técnica persuasiva do convencimento, sem aprofundar o conteúdo do discurso; e mesmo se era verdadeiro ou falso, rigoroso ou manipulador. Aristóteles seguiu a direção de seu mestre, e defendeu uma retórica que se apoiava no conhecimento da verdade.

Atualmente é comum encontrar cursos de comunicação para líderes que estão menos preocupados com o conteúdo do discurso e mais preocupados com a sua eficácia persuasiva. Vemos o efeito dessa formação nas análises rasas dos discursos mais polêmicos do nosso dia-a-dia. As pessoas se preocupam mais em rotular o discurso como progressista ou reacionário, elitista ou igualitário, polarizador ou integrador, do que julgar se ele é realmente verdadeiro ou falso.

No campo das relações humanas, aquilo que não é verdadeiro, não será sustentável. Um líder não poderá construir um legado perene só com alguns belos discursos e apresentações. Para Aristóteles havia um elemento que era constitutivo no discurso, o ethos: conjunto de hábitos morais da pessoa que o torna crível. A retórica só é efetiva se a outra pessoa se convence, e não existe argumento mais contundente do que uma autoridade autêntica, não teatral.

Os ensinamentos de Aristóteles de milênios atrás podem servir para os líderes de hoje: para construir uma autoridade autêntica, o orador deve desenvolver as virtudes da prudência e da benevolência. Ele deve saber o que fala, ter refletido profundamente sobre o tema (prudência), não se aproveitar de seu cargo para interesses pessoais (ser virtuoso) e demonstrar através de seus atos e palavras que está orientado para o bem comum (benevolência).

Jack Welch estava certo! O exercício da liderança depende de uma capacidade pessoal de direcionar o bem daquilo que se faz para os outros. Mas, para fazer isso, é preciso desenvolver-se de forma madura e profunda. Cultivando um caráter que reflita e que atraia. Se me mostrar quem és, te direi quem te seguirá…

 

Referências:

Manuel Casado Velarde, La retórica em la formación del comunicador, Cuaderno nº 121, abril de 2013, Instituto Empresa y Humanismo, Universidade de Navarra

Alberto Gil, Ethos del orador, ethos del governante, Cuaderno nº 121, abril de 2013, Instituto Empresa y Humanismo, Universidade de Navarra

Sobre
Renato Fernandes
Diretor do Depto. de Direção Comercial e Membro do Núcleo de Estudos em Negociação, Conflito e Comunicação. || Formação Acadêmica: Doutorando em Empreendedorismo e Vendas | University of Rhode Island, College of Business Mestre em Marketing | PUC-SP. Programa de Desarollo de Directivos | IAE Business School. Sales Performance: Helping Client to Succeed. Facet5: The Power of Personality. Graduado em Comunicação Social | PUC-MG. || Experiência Profissional: Como executivo, liderou todo o ciclo comercial de empresas de educação executiva em Minas Gerais e São Paulo. Como professor, desenvolveu milhares de pessoas em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Brasília. Como consultor, desenvolveu projetos para empresas dos segmentos de mineração, varejo, tecnologia, frotas, hospitalidade, saúde e gestão pública.