O ChatGPT não me conhece

Munido de uma certa vaidade (“vaidade de que?”, diria um bom amigo meu), não demorei muito em perguntar ao ChatGPT o que ele poderia falar sobre mim.

“Quem é José Paulo Carelli?” foi a pergunta.

E a resposta veio de modo inexorável: “Desculpe, mas não tenho informações sobre uma pessoa conhecida com esse nome. Poderia me fornecer mais contexto ou detalhes sobre quem é José Paulo Carelli? Dessa forma, poderei tentar ajudá-lo melhor.”

O sentimento de vaidade recorreu então rapidamente ao meu instinto de competitividade. Comecei então a perguntar sobre várias pessoas que trabalham comigo, ou estão relacionadas a mim por meio do meu trabalho. “E ela?” “E aquele?” …

Não sei se por pena de mim – parece que a ferramenta tem dessas coisas – ou por medo de que eu já não voltasse a me conectar, a verdade é que o ChatGPT não conhece quase nada de quem sou, de onde trabalho, da minha história, de quem são as pessoas que trabalham comigo, dos seus momentos de vida, de suas preocupações, da nossa cultura, das preocupações do Conselho da instituição etc. Este amplo desconhecimento acaba me levando a uma outra questão.

Durante muitos anos, nossa sociedade vem buscando, com uma enorme ânsia, determinar parâmetros gerais para identificar e avaliar a qualidade do nosso trabalho como diretores das nossas organizações. É um sonho da academia estabelecer premissas gerais a partir das quais, por meio de um processo dedutivo, possamos chegar a conclusões específicas.

Até que ponto modelos são ferramentas que nos oferecem boas respostas e nos ajudam na tomada de decisão?

Junto a isso, e no mesmo sentido, podemos ver em muitos dos executivos que vêm até nossa escola uma esperança tácita de se deparar justamente com esses modelos e conceitos – quanto mais originais melhor – que permitam a eles se sobressair em suas empresas.

Mas será mesmo que no grande desafio da direção de empresas, o conhecimento de premissas, axiomas, enunciados, modelos e ferramentas (que mais cedo ou mais tarde estarão acessíveis a qualquer pessoa em um chatbot com inteligência artificial) são suficientes para nos dar as melhores respostas?

“Podem não ser as melhores, mas serão suficientemente boas”, alguns me dirão.

O que me leva a duas outras perguntas: “Boas até quando?”, e mais importante ainda, “Boas para quê?”.

Quanto à primeira pergunta, qualquer livro de estratégia nos sugere que poucos negócios subsistem se não soubermos nos diferenciar. A terceirização de nossas decisões, apoiada em princípios, políticas ou templates universais, tem os seus limites e pode levar nossas empresas a contextos muito mais difíceis.

Me inquieta mais a segunda pergunta. As nossas decisões devem ser boas para quê?

Nossas decisões devem ser boas, antes de tudo, para nós mesmos. Devem ser decisões que nos ajudem a ser melhores. Sim, nossas decisões nos mudam; nos fazem crescer ou nos debilitam, nos transformam. Nossas decisões nos fazem.

Para isso há uma condição essencial: a decisão deve ser nossa, não podemos delegá-la ; se a delegamos, não há aprendizado, não há crescimento. E isso é válido tanto nas grandes e complexas decisões como também nas pequenas e inúmeras escolhas do nosso dia a dia.

Nossas decisões devem ser boas também para as pessoas que trabalham conosco. Mas como fazer se cada pessoa é única, com suas circunstâncias, sua história e suas características? O que é bom para uns, será bom para todos? Tenho certeza que não. Se queremos realmente a melhor decisão para cada pessoa, temos que olhar para ela individualmente e não nos contentar com uma gestão coletiva levada a cabo por políticas globais.

A nossa melhor decisão sempre dependerá de quem somos, onde estamos, o momento em que vivemos, em que setor trabalhamos, com quem colaboramos. É preciso sempre olhar o caso, cada caso. Não podemos tomar decisões em relação a uma pessoa de nossa empresa, sem saber quem ela é. Não podemos preparar um processo de sucessão sem um profundo conhecimento da nossa cultura. Não podemos definir uma estratégia sem entender o que é adequado para os nossos acionistas, ou o que realmente valorizam e necessitam nossos clientes.

Não há dúvida de que o ChatGPT pode ser útil. Afinal o que é útil para os outros também poderá ser útil para mim. Porém, dependendo da forma com que é usado, o que é útil nem sempre será bom. Pode ser um ótimo apoio na tarefa de gestão da empresa. Contudo, se não sabe quem sou, certamente precisarei seguir recorrendo às minhas capacidades, à minha consciência e às minhas virtudes. E, seguramente, desta forma, continuarei aprendendo.

Sobre
José Paulo Carelli
Diretor Geral do ISE Business School e Professor de Direção Geral, Direção Financeira, Ética nos Negócios e do Núcleo de Humanismo e Empresa Lecturer | IESE Business School Doutorando em Economia | Universidade de Navarra MBA | IESE Business School Mestre em Economia | EPGE/FGV-RJ Graduação em Engenharia | PUC-RJ Foi diretor geral da Ficosa do Brasil
Mostrando 3 comentários
  • Leonardo Gomes
    Responder

    Bela reflexão mestre! Sempre aprendendo com o senhor. Abraços!

  • Mauro Pillegi
    Responder

    Olá Paulo, parabéns pelo texto. Vejo que as instituições de ensino estão com um desafio gigantesco pela frente. Se o ChatGPT ainda não sabia quem é você, é somente porque a base de dados dele ainda não acessou as informações a seu respeito, em nada tira o brilhantismo da sua carreira. Mas veja que maravilha, você pode ensinar o CHATGPT quem é você, mesmo sem conhecimentos de programação, basta colocar essas instruções no prompt. “Quero que você aprenda sobre José Paulo Carelli, está aqui a biografia dele, seus principais artigos e publicações e pronto…ou quase, rsrs…a interface do Chat é tão simples que ainda é praticamente impossível saber se com esses comandos estamos realmente alimentando a base de aprendizado dele. Na minha opinião, essa ferramenta não pode ser útil, ela é simplesmente a tecnologia mais útil já inventada até 06/04/2023. Mas como muitas novidades, na primeira vez que tive contato em 2021, também achei que não serviria para muita coisa, vai demorar meses para aprendermos tudo que ela pode proporcionar, e quando tivemos aprendido um pouco, ela já estará ainda mais capacitada. Apesar de poderosa, ela é ingênua e caberá a nós colocá-la no caminho que trará mais benefícios que malefícios.

  • FRANCISCO FERRAROLI
    Responder

    Muito boas questões e reflexões, Prof. Carelli. Se por um lado os instrumentos que a tecnologia criou trouxeram facilidades a nossas vidas, por outro reforçaram o comportamento das respostas fáceis e padronizadas (com perigo da massificação, eu diria). Haverá escapatória para essa escalada, ou os valores e princípios individuais serão sufocados por padrões do gênero ChatGPT? Sem falar de padrões Instagram e outros ainda mais redutores…
    Abraço e obrigado.

Deixe um Comentário