Do controle ao critério: por que accountability não sustenta a cultura

Accountability continua sendo uma alavanca estratégica? Sim.

Embora seja um conceito antigo, segue absolutamente crítico para organizações que buscam coerência entre desempenho, cultura e sustentabilidade no longo prazo. Ainda assim, cresce a evidência de que, sozinha, ela não é suficiente. Líderes precisam ir além da accountability e avançar para algo mais profundo: o ownership, ou sentimento de dono.  

Historicamente, desde o século XIV, accountability esteve ligada à ideia de “prestar contas”. O termo ganhou força no século XX, especialmente após escândalos corporativos como Enron e WorldCom, quando controles, limites e ética passaram a ocupar lugar central na governança. Desde então, tornou-se parte do jargão corporativo e um marcador de maturidade organizacional. 

Com o tempo, porém, o conceito ampliou seu significado. Além de prestar contas sobre o que foi feito, accountability passou a incorporar a noção de responsabilidade. E essa não é uma adição trivial. Prestar contas diz respeito ao passado; responsabilizar-se envolve também o futuro. Implica uma postura ativa diante das decisões, das consequências e do impacto no todo organizacional. Talvez por isso accountability não “saia de moda” — e siga sendo uma habilidade tão desejada quanto difícil de construir. 

A pergunta central para líderes permanece: como criar contextos em que as pessoas façam o que precisa ser feito, com responsabilidade, alinhamento e iniciativa própria? 

 

Controle não é responsabilidade 

Um líder pode estruturar processos robustos de prestação de contas e delegar sua execução. Controles claros, indicadores bem definidos, ritos de acompanhamento — tudo isso é necessário. São sistemas essenciais de informação, orientam prioridades e reduzem ambiguidade. Na prática, uma revisão cuidadosa dos controles e da estrutura formal costuma ser um primeiro passo importante. Mas é apenas o começo. 

Controles tendem a gerar obediência, mais do que responsabilidade. Pessoas responsáveis respondem não apenas ao que foi feito, mas ao que ainda precisa ser feito — mesmo quando não há prêmio ou punição explícitos.  

Há um princípio simples — e frequentemente negligenciado — que sustenta a accountability: só existe responsabilidade verdadeira onde há liberdade para decidir. O desafio passa a ser equilibrar liberdade e alinhamento, criando ambientes em que decisões conscientes sejam possíveis mesmo nos níveis mais operacionais da organização. É desse equilíbrio que emerge a discussão sobre autonomia. 

 

Autonomia como correspondência, não como concessão 

Quando controles, estruturas de poder e papéis estão claros, líderes se deparam com uma ambivalência recorrente: desejam equipes com mais capacidade de decisão, mas com total previsibilidade das escolhas que serão feitas. A autonomia é defendida no discurso, mas temida na prática por ser frequentemente associada à perda de controle, à insubordinação ou a generalizações apressadas sobre novas gerações. Costumo brincar usando a frase: “pode escolher qualquer cor, desde que seja branco”. 

Autonomia sem estrutura é abandono.
Estrutura sem autonomia é rigidez. 

A autonomia é, na essência, uma correspondência. Ela deriva de confiança mútua entre líder e liderado e exige maturidade de ambos. Trata-se de um pilar cultural — informal — que se apoia nas estruturas formais da organização. 

Essa maturidade também pede que a liderança abandone o modo “herói” — aquele que centraliza decisões e tem todas as respostas — para assumir o papel de facilitadora de contextos em que “se erra bem”. Não são permissivos; possibilitam que decisões sejam tomadas com critérios claros, refletidas coletivamente e transformadas em aprendizado. 

Quando esse movimento se amplia para a organização, ele exige coerência intencional entre estratégia e cultura, entre estruturas formais e informais, entre o que se diz e o que se faz. 

 

O limite da accountability e o salto para o ownership 

É aqui que emerge a insuficiência da accountability. Um gestor experiente sabe que uma pessoa pode ser responsável — cumprir metas, entregar resultados, comprometer-se — e ainda assim não estar alinhada aos valores de longo prazo da organização. 

A organização é mais do que a soma de suas estruturas formais e informais. O verdadeiro salto qualitativo acontece quando se avança da accountability para o ownership. E isso não tem relação com participação acionária.  

Esse movimento se traduz na evolução do discurso e da prática da liderança: do “deixa que eu resolvo”, para o “como você resolveria?”, até chegar ao “o que você precisa para resolver?”. O foco desloca-se da execução para a capacidade de decidir bem. Sentir-se dono implica um vínculo moral que demanda critério, contexto e confiança. 

 

Criar contexto e confiança 

Em ambientes voláteis e pressionados, decisões consistentes com ambições organizacionais de médio e longo prazos exigem mais do que rapidez ou alinhamento formal. O formal fica “curto” diante de todas as micro adaptações que são necessárias para responder com eficácia e eficiência às demandas do entorno. Nesse cenário, a fluidez da informação e o poder relacional ganham peso equivalente ao poder formal. A capacidade de influenciar com consistência, transparência e integridade torna-se um ativo organizacional, dando passo às relações de confiança – aquelas onde se escolhe acreditar que as decisões serão boas, mesmo “sem saber exatamente qual será”.  

Contextos de confiança não são ingênuos. A confiança é necessária na incerteza – característica atemporal do ambiente de negócios –, mas contém a competência, evidenciada pelos indicadores formais, e o envolvimento genuíno com o impacto das escolhas no médio e longo prazo. Organizações se transformam por meio das pessoas. E as estruturas — formais, informais e a de valores — serão mais ou menos fortes e coerentes entre si na medida em que as pessoas vivam, ou não, o que a organização propõe, para crescer junto com ela. 

Na prática, reduzir a distância entre o valor declarado e o valor vivido raramente demanda revoluções. Exige constância e intenção. Algumas práticas contribuem para esse alinhamento: 

Na liderança: 

  • Observar e questionar seus hábitos próprios; 
  • Conhecer as pessoas para além das competências específicas da função; 
  • Evoluir seu estilo de liderança, mirando a formação de decisores; 
  • Reconhecer as pessoas também pelo critério da decisão, não somente pelos seus resultados. 

Na organização: 

  • Potencializar a interdependência com indicadores e ritos cruzados; 
  • Fomentar colaboração multidisciplinar e multigeográfica, formal e informalmente; 
  • Estimular ideias desde a ponta e criar condições reais para que saiam do papel; 
  • Ouvir o cliente e estudar o ambiente de negócios de forma genuína e estruturada. 

Todos estes pontos buscam algo em comum: boas decisões, com responsabilidade, contribuindo para o desenvolvimento da accountability e do ownership. Estas práticas começam pela alta liderança, mas só se sustentam quando vividas no cotidiano da organização, com coerência entre suas estruturas. Liderar neste contexto é cultivar um ambiente em que as pessoas sabem, podem e escolhem fazer o que é certo. E talvez seja exatamente isso que diferencie organizações que apenas performam daquelas que, de fato, aprendem e perduram.

Sobre
Natália de Castro
Professora de Gestão de Pessoas, Contabilidade e Controle e Responsabilidade Social MBA IESE Business School Graduada em Contabilidade com ênfase em Finanças | Universidad Panamericana, México Atuou como Brazil Controller para as unidades de negócios que compõem a carteira Banking no Banco JP Morgan, entre elas Fusões e Aquisições, Mercados de Dívida e Capitais, e Serviços de Tesouraria. Desenvolveu sua carreira no Brasil e América Latina nas diferentes áreas de Finanças, destacando-se Controladoria, Análise e Planejamento, e Business Management. natalia.castro@ise.org.br 

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