Máquinas podem sugerir soluções, mas não se responsabilizar por elas

Em toda palestra que dou para executivos e conselheiros, cedo ou tarde aparece a mesma pergunta:

Se a inteligência artificial já consegue analisar tudo com mais precisão do que nós, por que ainda precisamos de conselhos formados por pessoas?” 

É uma provocação legítima. Afinal, não dá para negar que os sistemas atuais impressionam. Eles cruzam dados em segundos, percebem padrões que nossos olhos jamais enxergariam e oferecem recomendações que soam racionais, seguras e até criativas. Quem já interagiu com um desses modelos avançados sabe: às vezes a sensação é de estar conversando com um consultor brilhante, sempre pronto a dar respostas. 

Mas há uma fronteira que não pode ser ignorada. Máquinas podem sugerir soluções. Só que, quando as coisas dão errado, não serão elas a assumir a responsabilidade. 

 

Responsabilidade não é programável

Imagine que uma decisão tomada com base em algoritmos resulte em um escândalo ambiental. Quem aparece no noticiário, quem presta contas aos acionistas, quem recebe a ligação de um regulador? Não é a máquina. 

Responsabilidade envolve responder por escolhas que afetam vidas, empregos e comunidades. É o peso de sentar-se diante de famílias que perderam renda ou de clientes que tiveram sua confiança traída. Essa dimensão é irredutivelmente humana. 

Um software pode até indicar a “melhor” saída estatística, mas não comparece a assembleias, não enfrenta jornalistas e não sente vergonha ou orgulho pelo que decide. É por isso que o Conselho continua insubstituível: ele assume deveres que não cabem em linhas de código. 

 

Quando os dados dizem uma coisa e o coração da empresa pede outra

Deixe-me contar um caso real que uso em sala de aula (sem nomes, por motivos óbvios). Uma grande companhia passou por processo de sucessão de CEO. Todos os indicadores apontavam para um candidato: resultados consistentes, currículo impecável, experiência internacional. 

Os números eram claros. Só que havia um problema: essa pessoa não era vista como alguém capaz de preservar a cultura que unia a empresa há décadas. O risco não aparecia nos gráficos, mas estava no ar: perda de identidade, saída de talentos, choque de valores. 

O conselho decidiu não seguir a opção mais “provável” nos relatórios. Escolheu outro caminho. E acertou. Porque algumas decisões não são sobre maximizar métricas, e sim sobre proteger o que mantém a organização viva. 

É aí que a tecnologia mostra seus limites. Ela entrega evidências, mas não substitui o julgamento de quem entende que cultura não se mede apenas em planilhas. 

 

A utilidade da tecnologia depende de quem a usa

Outro ponto que costumo enfatizar: não é o algoritmo que decide onde deve ser aplicado. Somos nós que escolhemos. 

Executivos e conselheiros precisam responder a perguntas difíceis: 

  • Em quais situações os sistemas realmente agregam valor? 
  • Quando eles são apenas uma ferramenta auxiliar? 
  • Em que momentos é melhor não os utilizar, justamente para preservar o caráter humano da decisão? 

Não existe manual pronto. Essa definição de limites é parte da função de quem governa. Não adianta terceirizar o pensamento crítico para a máquina. Quem não define as regras, acaba sendo definido por elas. 

 

Conselhos não competem com sistemas inteligentes

Alguns gostam de colocar humanos e máquinas como se fossem concorrentes. Para mim, essa comparação não faz sentido. Conselhos não existem para competir com softwares. Eles existem para garantir que a empresa não perca o rumo. 

Um bom conselho faz três coisas que nenhum algoritmo consegue: 

  1. Protege o sentido da organização — zela pelo propósito e pela identidade que não cabem em estatísticas. 
  2. Escolhe as pessoas certas — avalia líderes não só pelo desempenho técnico, mas também pela integridade e capacidade de inspirar. 
  3. Assume votos — decide, mesmo quando não há certeza, e responde pelo que decidiu. 

Essas três funções estão no coração da governança. Nenhum modelo matemático, por mais sofisticado, é capaz de exercê-las. 

 

O que se espera de executivos e conselheiros

Diante disso, qual é o desafio dos líderes de hoje? Não é rejeitar a tecnologia. Seria ingênuo. Também não é embarcar nela sem crítica. Seria perigoso. 

O verdadeiro desafio é cultivar uma postura de prudência ativa. Saber aproveitar os ganhos de velocidade e precisão que os sistemas oferecem, mas sem abandonar a consciência de que, no fim, é o ser humano quem responde. 

Isso exige ceticismo saudável, disposição para discordar e coragem de questionar os próprios relatórios. Significa discutir casos reais, compartilhar dilemas e não se envergonhar de admitir que nem sempre os números contam a história inteira. 

 

Conclusão: o peso de responder 

Vivemos um momento fascinante. De um lado, máquinas que simulam raciocínios brilhantes, gerando insights antes impensáveis. Do outro, a lembrança de que nenhuma delas senta-se na cadeira do conselho para carregar o peso de uma decisão. 

Conselheiros e executivos continuam sendo insubstituíveis porque são eles que respondem. São eles que dão a cara quando uma escolha impacta vidas. São eles que podem dizer “sim” ou “não” não apenas por causa de um gráfico, mas por causa de valores, princípios e da visão de futuro que carregam. 

No fundo, é essa disposição de assumir consequências que diferencia um cálculo de uma decisão. Máquinas podem sugerir soluções. Mas só pessoas podem responsabilizar-se por elas. 

 

Sobre
Marcos Citeli
Diretor e Professor dos Departamentos de Contabilidade e Controle e Análise de Decisões. Professor de Negociação, Empresa-Família e Direção Geral. Membro do Núcleo Consensus de Estudos em Negociação. Doutorando e MBA IESE Business School Certificado pelo International Faculty Program IESE Business School. Mestre em Sistemas PUC-RJ Graduação em Engenharia de Sistemas IME – Instituto Militar de Engenharia Atua com o consultor de empresas mciteli@ise.org.br

Deixe um Comentário