Recentemente, tive o privilégio de revisitar a Odisseia com minha filha. Ela está estudando o épico na escola, e me convidou, com a curiosidade doce de quem descobre o mundo pela primeira vez, a mergulhar com ela nessa aventura milenar. Aceitei de imediato. Mas, dessa vez, li com outros olhos. A jornada de Ulisses, que já me encantava desde os tempos de escola, se revelou também uma poderosa metáfora para os desafios que enfrentamos no mundo profissional. Compartilho aqui, com vocês, o que vi nessas páginas antigas, agora iluminadas por novas perguntas.
Dizem que no mar Egeu, em tempos que só os deuses lembram com precisão, navegava um homem com saudade de casa e um plano claro na cabeça. O nome dele era Odisseu, ou Ulisses, para os mais íntimos da versão latina. Rei de Ítaca, guerreiro astuto, herói cansado de tanta aventura. Mas naquele trecho da jornada, o perigo não vinha de monstros nem de tempestades. Era mais traiçoeiro. Vinha em forma de canto.
As sereias.
Não eram monstros. Eram belas. E perigosas, justamente por isso. O canto delas era tão perfeito que nenhum homem resistia. Os navios saíam do rumo, encantados, e iam dar de cara nas pedras. Não por ignorância. Nem por fraqueza. Mas por sedução. E Ulisses, homem vivido, sabia disso. Sabia que resistir à beleza era mais difícil do que enfrentar a guerra de Tróia inteira. E mesmo assim, curioso feito menino, queria escutar. Queria ouvir o canto proibido. Mas não queria morrer na praia, ou melhor, nas rochas. Foi aí que tomou uma das decisões mais sábias, e talvez mais raras, entre os líderes: não confiou na própria força de vontade.
Mandou tampar os ouvidos da tripulação com cera. E ele mesmo pediu que o amarrassem ao mastro.
“— Por mais que eu grite, que esperneie, que implore… não me soltem.”
E assim foi. O navio avançou, o canto começou, e Ulisses se debateu como se tivesse o coração dividido entre Ítaca e o abismo. Gritou, chorou, quis romper cordas e promessas. Mas ninguém cedeu. E o barco passou. Sem desvio. Sem naufrágio. Ítaca ficou mais próxima.
Essa história tem milênios. Mas, se prestarmos atenção, ela acontece todos os dias nos corredores de qualquer empresa. As sereias continuam por aí. Só trocaram de cenário. Hoje cantam no LinkedIn, nas modas corporativas, nas ideias mirabolantes das reuniões de última hora. Cantam no concorrente que lança algo mais barulhento. No projeto paralelo que parece mais interessante do que o plano original. Cantam naquela voz mansa que sussurra: “Vamos só ajustar um pouquinho?” E muitos líderes, como os marinheiros antigos, perdem o rumo. Não por incompetência. Mas por sedução. Seduzidos pelo brilho do novo, pelo barulho do urgente, pela beleza do que ainda não foi testado. Por não saberem se proteger do que encanta e, muitas vezes, engana.
Ulisses nos ensina que manter o rumo exige mais do que coragem. Exige método. Quando tudo parece convidar ao desvio, o que salva não é fazer mais. Nem ser mais rápido. Nem gritar mais alto. É saber calar.
A grandeza operacional, essa que sustenta empresas sólidas, não é a que chama atenção. É a que faz o que precisa ser feito mesmo quando ninguém aplaude. Ulisses sabia que haveria um momento em que ele mesmo não seria confiável. E preparou o sistema antes do impulso. Essa é a diferença entre líderes estratégicos e gestores reativos. Mas resistir às sereias, ou se amarrar a um mastro, exige mais do que disciplina pessoal. Exige clareza coletiva.
Lembro de uma conversa com um executivo de marketing de uma grande empresa de Telecom. Ele estava angustiado na véspera da reunião de resultados com o CEO. No trimestre anterior, a ordem era clara: aumentar a participação de mercado. E ele conseguiu. Passou da meta, inclusive. Mas naquele novo trimestre, o foco havia mudado. Agora, o importante era a rentabilidade. Só que, para ganhar mercado, ele precisou reduzir margens. O que antes era motivo de celebração virou motivo de cobrança. Esse padrão vinha se repetindo. Trimestre após trimestre, mudavam os objetivos, mudavam as metas, mudava o que era valorizado. O executivo estava exausto. Sentia-se frustrado, desorientado e, naquele momento, sinceramente próximo de pedir demissão. No fundo, ele não sabia mais o que importava. Nem ele, nem sua equipe. Essas são as organizações pêndulo. Ora miram o crescimento, ora a margem. Ora o cliente A, ora o cliente B. Sempre reagindo ao último movimento do concorrente ou ao humor do mercado. Sempre mudando de plano. Tentando corrigir o leme no meio da tempestade. O problema dessas oscilações não é só o desalinhamento estratégico. É a tensão silenciosa que elas semeiam. Equipes cansadas, métricas contraditórias, prioridades que mudam antes de amadurecer.
Jim Collins, no livro “Good to Great”, diria que isso é exatamente o que impede empresas de alcançar a excelência. Ele fala da importância de construir uma cultura de disciplina. Disciplina nas pessoas, no pensamento e nas ações. Fala também da necessidade de ter um conceito central, o tal do Hedgehog Concept, onde se unem paixão, competência e motor econômico. Mas, acima de tudo, ele fala da coragem de manter o rumo. De não ceder ao barulho. De não trocar uma estratégia sólida pela moda da semana. Ulisses sabia disso. Sabia que sua vontade não bastaria. Por isso pediu para ser amarrado. Porque grandes jornadas exigem grandes compromissos. E talvez seja essa a maior lição para quem lidera hoje. Não basta escolher uma boa estratégia. É preciso resistir à tentação de abandoná-la ao primeiro canto bonito. E, principalmente, é preciso proteger sua equipe das mudanças bruscas de maré. Porque no fim das contas, o que transforma empresas não é correr mais rápido. É seguir na direção certa por tempo suficiente.
E você? Já sabe a que mastro precisa se amarrar?
Ou ainda está deixando o rumo ao sabor da canção mais bonita da semana?


