Improviso, jeitinho e excelência: o que o jazz ensina sobre gestão

Adoro música jazz e sempre gostei da ideia de improvisar. É sensacional sentir a música sendo criada no mesmo momento em que está sendo tocada. Quando adolescente, eu queria aprender guitarra jazz justamente para isso: aprender a improvisar. Mas logo percebi que, antes de sair tocando, era preciso estudar muito — imitar os solos dos grandes músicos. Lembro-me de uma entrevista do guitarrista John Scofield, em que ele disse algo que nunca esqueci: “Ninguém improvisa no palco algo que não tenha tocado milhões de vezes sozinho em casa.” Ou seja, até a improvisação precisa de base, treino e repetição. A liberdade só vem com preparo. Isso vale para improvisar na música — e também para improvisar no trabalho.

O conceito de improvisação tem ganhado destaque no mundo empresarial. Entre nós isso tem sido visto por alguns como endosso ao “jeitinho brasileiro”. Mas improvisar bem numa organização não significa simplesmente fugir das regras ou fazer qualquer coisa fora do processo. É, na verdade, saber responder com agilidade e inteligência a situações inesperadas, com preparo e experiência. Para que o improviso funcione é preciso ter uma estrutura mínima que permita liberdade com responsabilidade. Não se improvisa em qualquer contexto — há momentos em que isso é desejável, como diante de incertezas ou urgências, mas em tarefas rotineiras e críticas o improviso pode gerar riscos sérios. Improvisar bem exige confiança, cultura alinhada e comunicação clara. Existem também diferentes tipos de improviso — desde pequenos ajustes operacionais até mudanças estratégicas ou de estrutura. E tem mais: improvisar não é só reagir: é também uma oportunidade de aprender. Num contexto organizacional adequado, cada improviso pode se transformar em aprendizado, alimentando melhorias futuras.

O recente escândalo no INSS é um exemplo emblemático da ambiguidade moral do jeitinho. Mais de R$ 1 bilhão foram desviados de aposentados através de fraudes em empréstimos consignados. Por trás dessas fraudes havia uma rede de intermediários — “facilitadores” — que cobravam para “desbloquear” benefícios ou agilizar processos emperrados. O que começou como solução informal virou esquema de exploração. O jeitinho que ajuda a atravessar a burocracia pode, quando institucionalizado e desvirtuado, virar corrupção sistêmica disfarçada de criatividade.

Mas há algo importante aqui: o mundo está tentando aprender a improvisar, e muitos não conseguem. Vemos isso claramente quando olhamos para as dificuldades recentes de grandes empresas globais diante de cenários incertos e instáveis. AstraZeneca, por exemplo, teve que realocar sua produção de medicamentos da Europa para os EUA às pressas, para evitar impactos das novas tarifas comerciais. Adidas já alertou que precisará repassar preços aos consumidores porque não consegue adaptar rapidamente sua cadeia de suprimentos diante das novas tarifas sobre produtos da China. A Shein, gigante do fast fashion, enfrentou um golpe duro com o fim das isenções de pequenas encomendas nos EUA, e ainda não conseguiu encontrar uma saída operacional que substitua sua dependência do modelo chinês. Até Skechers precisou ser vendida, em parte por não conseguir reorganizar sua cadeia global em tempo hábil.

Esses exemplos mostram que improvisar bem não é trivial. Grandes organizações globais, com recursos e know-how, lutam para improvisar quando o mundo muda rápido demais. Falta-lhes, muitas vezes, a prática cotidiana da improvisação que o brasileiro, por necessidade, aprendeu desde cedo. Há algo na nossa cultura de adaptabilidade, flexibilidade e jogo de cintura que pode ser uma vantagem competitiva, se bem canalizado.

Muitas vezes se diz que o brasileiro não gosta de seguir regras. Há, sim, uma tendência cultural de valorizar a flexibilidade e desconfiar de estruturas muito rígidas. Mas sempre repito nos meus cursos para executivos que boas regras e processos bem definidos são a síntese do nosso conhecimento acumulado sobre como fazer algo da melhor forma. E isso é muito bom! Se alguém acha que existe um jeito melhor, ótimo — mas que prove, documente, e a partir de então todos passam a fazer daquele jeito. Essa é a base do modelo de melhoria contínua da Toyota: regras claras, porém sempre abertas a serem alteradas se alguém provar que existe uma regra melhor.

Não se trata de eliminar a criatividade ou o improviso, mas de colocá-los no lugar certo. O jeitinho não pode substituir processos estáveis e claros. Há situações em que o improviso é desejado — mas outras em que é totalmente inaceitável. Por exemplo, se vou fazer uma cirurgia, quero que o médico siga exatamente o protocolo estabelecido. Mas também quero que seja um médico experiente, porque se algo sair do esperado, ele saberá o que fazer. Improvisar bem é isso: conhecer bem e seguir o script na maioria das vezes, mas saber quando e como sair do script, com conhecimento e responsabilidade.

Como no jazz, a liberdade para improvisar só vem com preparo. Talvez, neste momento de incertezas globais e rupturas nas cadeias de suprimento, o mundo tenha algo a aprender com o nosso jeito de improvisar — não o jeitinho que contorna a ética ou as normas – mas o jeitinho virtuoso, a improvisação com propósito, responsabilidade e inteligência coletiva. Para que o jeitinho, enfim, deixe de ser um sintoma de fragilidade e passe a ser um instrumento consciente de resiliência e inovação.

Sobre
Paulo Rocha e Oliveira
Professor de Operações Doutor em Gestão de Operações MIT (Massachusetts Institute of Technology) Graduado em Matemática Universidade de Princeton Atua como consultor de empresas Suas áreas de interesse são: Qualidade e Produtividade de Serviços, Interface de Operações com Marketing e Recursos Humanos, Logística e Transporte e Gestão da Educação procha@iese.edu

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