Liderar é sonhar como Quixote, executar como Sancho

Tive o privilégio de ter José Antonio Segarra como meu mentor quando entrei no IESE.

Foi ele quem me ensinou a dar aula no estilo da escola — com profundidade, rigor e uma conexão humana que não se aprende em manuais. Mas o que mais me marcou foi sua forma de pensar e ensinar: cheia de metáforas que transformam conceitos em imagens inesquecíveis.

Segarra tinha um conhecimento profundo do mundo dos negócios — executivo, consultor, conselheiro de empresas, PhD e professor. Mas era também um homem culto, com interesses que iam muito além da sala de aula ou da planilha.
Suas metáforas vinham de todos os lados: da literatura, do esporte, da história, da vida prática. E sempre aterrissavam com precisão no ponto que ele queria ensinar.

Uma das primeiras que ouvi dele foi a do líder com farol alto e farol baixo — alguém que sabe onde quer chegar, mas também enxerga os buracos no caminho. Visão e operação ao mesmo tempo.

Depois veio a imagem do jogador de futebol que joga olhando pra frente, mas com total controle dos pés. Porque não adianta sonhar com o gol se você tropeça na bola.

Mas a metáfora mais profunda vinha de um clássico absoluto da cultura ibérica — e, por que não, da própria raiz da liderança prudente: Dom Quixote, de Cervantes.

Para quem não conhece a história: Quixote é o cavaleiro idealista que vê o mundo não como ele é, mas como deveria ser. Sancho Pança, seu escudeiro, é o oposto — um homem prático, pé no chão, que tenta equilibrar os delírios do mestre.

Mas o que poucos percebem é que, com o tempo, Sancho se transforma.
Quando assume o papel de governante de uma pequena ilha, ele surpreende. Governa com justiça, equilíbrio e sabedoria. Incorpora os valores de Quixote, sem perder sua essência.
Ele se “quixotiza”.

E talvez seja exatamente isso que define o bom líder: alguém capaz de unir sonho e execução, visão e consistência.
Liderar é sonhar como Quixote, executar como Sancho — porque visão sem ação é devaneio, e ação sem visão é agitação.

E você — tem liderado com visão e propósito, sem perder o pé no chão?
O que ainda falta para equilibrar o Quixote e o Sancho dentro de você?

Sobre
Paulo Rocha e Oliveira
Professor de Operações Doutor em Gestão de Operações MIT (Massachusetts Institute of Technology) Graduado em Matemática Universidade de Princeton Atua como consultor de empresas Suas áreas de interesse são: Qualidade e Produtividade de Serviços, Interface de Operações com Marketing e Recursos Humanos, Logística e Transporte e Gestão da Educação procha@iese.edu

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