Na guerra comercial, a estratégia vence: o que executivos brasileiros podem aprender com Caio Mário?

No ano 107 a.C., Caio Mário reconfigurou o exército romano. Em vez de depender de cidadãos-proprietários para formar milícias temporárias, ele criou um exército profissional, permanente e com incentivos materiais claros. Roma não apenas ganhou novas batalhas: ela criou uma nova forma de poder. Não foi uma mudança tática, mas estrutural – uma nova lógica operacional.

Essa lógica é precisamente o que falta na maior parte das análises econômicas sobre a nova guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos nesta semana. Tarifas de até 54% sobre produtos chineses, 20% para a União Europeia, e punições a aliados históricos como Japão e Coreia do Sul foram anunciadas por Donald Trump. O Brasil foi tratado com relativa brandura, com tarifa mínima de 10%. Mas isso não significa segurança. Significa que o tabuleiro se move, e que o risco real recai sobre empresas que ainda operam sob premissas ultrapassadas.

Ao contrário do que sugerem economistas que focam no impacto sobre o PIB ou sobre a balança comercial, o problema para o setor privado é outro: estratégia. Cadeias longas, alta dependência de fornecedores asiáticos, contratos financeiros rígidos e lógica de eficiência baseada apenas em custo estão sendo varridas do mapa. A vantagem agora está na adaptabilidade.

Como mostrou o Financial Times na edição de 3 de abril de 2025, grandes grupos globais de energia e commodities como Vitol, Trafigura e Gunvor estão acelerando a compra de ativos logísticos e verticais de produção para ganhar autonomia. Mais do que defender margens, o objetivo é redesenhar suas operações para sobreviver à nova topografia do comércio. Não é uma questão de reagir. É uma questão de refazer a lógica de atuação.

No setor automotivo, revendedores dos EUA antecipam queda nas vendas por conta do encarecimento de veículos importados. E mesmo empresas asiáticas estão se reposicionando: há um movimento claro de busca por alternativas fora da China, tanto em logística quanto em fornecimento.

Nesse cenário, o Brasil aparece como peça ambígua. Ainda não foi alvo direto, o que oferece margem de manobra. Mas essa vantagem só se concretiza para empresas que souberem se mover.

O agronegócio e a indústria de alimentos têm oportunidade real de ocupar espaços deixados por exportadores americanos em meio às retaliações da China e da Europa. Mas isso vem com efeitos colaterais: alta de preços no mercado interno e volatilidade nos contratos referenciados à Bolsa de Chicago. A oportunidade existe, mas precisa ser cercada de blindagem financeira, cambial e logística.

A logística e a navegação, por sua vez, estão entrando no radar. Como aponta reportagem do próprio Valor, cresce a rejeição a navios chineses, o que abre espaço para estaleiros japoneses e, potencialmente, para fornecedores brasileiros que atuem com serviços técnicos e manutenção. É uma chance rara de reindustrialização em nichos de alto valor, desde que acompanhada de financiamento, capacitação e reposicionamento comercial.

Na indústria leve, setores como têxtil, calçadista, farmacêutico e alimentos processados, há oportunidades de reconquista de mercados na América Latina e Europa, especialmente em linhas com menor escala, mas maior confiabilidade. A valorização de cadeias curtas, traçáveis e sustentáveis pode beneficiar empresas que apostarem em regionalização inteligente.

Mas o risco maior não vem de Washington. Vem de dentro. Muitas empresas brasileiras ainda operam com lógica operacional herdada da globalização dos anos 1990. Foco exclusivo em escala, baixa diversificação de moeda e fornecedores, e ausência de inteligência logística são hoje vulnerabilidades, não virtudes.

Além disso, subsidiárias brasileiras de multinacionais já estão sendo chamadas a compensar perdas globais. Isso significa aumento de metas, redução de verbas para marketing e necessidade de revisão de processos. Só entregar não basta. É preciso gerar margem.

Yuval Harari escreveu que as grandes transformações humanas decorrem da capacidade de reorganizar a cooperação em larga escala. Caio Mário fez isso com seu exército. As tarifas de Trump, gostemos ou não, estão tentando fazer isso com o sistema comercial internacional.

Para o executivo brasileiro, o desafio agora é sair do modo defensivo. A vantagem não está em prever o cenário. Está em ajustar operações antes que a incerteza vire crise. O comércio global não será mais o mesmo. As regras estão mudando. E como em toda guerra, não vence quem se move primeiro, mas quem entende mais rápido o que está em jogo e reposiciona sua estratégia com coragem e precisão.

Sobre
Paulo Rocha e Oliveira
Professor de Operações Doutor em Gestão de Operações MIT (Massachusetts Institute of Technology) Graduado em Matemática Universidade de Princeton Atua como consultor de empresas Suas áreas de interesse são: Qualidade e Produtividade de Serviços, Interface de Operações com Marketing e Recursos Humanos, Logística e Transporte e Gestão da Educação procha@iese.edu

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