Em um mundo empresarial cada vez mais complexo e acelerado, encontramos na obra Diálogos com Luis Manuel Calleja um verdadeiro tesouro de sabedoria prática para quem busca não apenas dirigir organizações, mas fazê-lo com visão ampla, sensibilidade humana e excelência.
Este livro nasceu do desejo antigo — e por muito tempo adiado — de escrever algo junto com Calleja. Ele insistia ano após ano, mas sempre tive receio de não estar à altura. Foi apenas quando soube da gravidade de sua doença que decidi propor: “Vamos escrever um livro em formato de diálogos, à distância”. Ele aceitou com entusiasmo, e assim começou uma intensa colaboração transatlântica.
Como professor de Direção Geral do IEEM, estive ao lado de Calleja em muitas aulas, conversas e viagens. Foi nesse contexto que os “Diálogos” foram sendo moldados. Este livro, publicado com o apoio do IEEM e sempre presente nos programas do ISE Business School, reflete não apenas suas ideias, mas também sua maneira única de ver o mundo.
Liderança como arte do possível: os arranjos imperfeitos
Desde o primeiro diálogo, Calleja nos apresenta uma visão singular do trabalho do político de empresa: “Um problema político não pode ser resolvido, apenas ‘arrumado’, o que é muito diferente”. Essa ideia, que ouvi dele inúmeras vezes, rompe com o tecnocratismo dominante. Para Calleja, governar é navegar na imperfeição, fazer avanços possíveis — e transitórios.
Ao longo do diálogo, ele critica a visão tecnocrática que toma os fins como garantidos, esquecendo que é papel do líder decidir e conduzir, conciliando técnica e humanidade (Diálogo 1).
Pessoas no centro: excelência humana como motor organizacional
Calleja nunca separava resultados de pessoas. No quinto diálogo, ele é direto: “Nenhuma empresa vai para frente quando os colaboradores têm a impressão de que não faz diferença trabalhar bem ou trabalhar mal”. Essa frase, dita com a firmeza de quem viveu a gestão de perto, mostra sua convicção de que convivência profissional saudável e resultados andam juntos.
Para ele, a liderança é conseguir que cada pessoa dê o máximo de si, dentro das suas possibilidades. E isso exige direção, sistemas de trabalho e uma atenção humana autêntica (Diálogo 5).
Iniciativa, recursos e poder: os três pilares da alta direção
No sexto diálogo, Calleja formula um dos princípios mais poderosos da alta direção: “Iniciativa, dinheiro e poder. São necessárias as três, e a abundância de uma não compensa a ausência de outra”.
Como conselheiro e docente, ele observava que muitos fracassos organizacionais vinham justamente do desequilíbrio entre esses três elementos. E lembrava que o poder real não é “mandar”, mas ter capacidade de ação responsável e legítima. Esse ensinamento foi fundamental para muitos líderes que, como eu, buscavam alinhar estratégia com estrutura e pessoas (Diálogo 6).
Escolher bons sócios: uma decisão profundamente humana
Calleja advertia com frequência: “Não é qualquer sócio que serve para qualquer negócio”. No oitavo diálogo, ele detalha os critérios humanos e estratégicos que devem orientar a escolha de sócios. Mais do que afinidade ou capital, é a complementariedade de iniciativa, recursos e visão que garante a sustentabilidade da empresa (Diálogo 8).
Servir para liderar: a filosofia de Calleja em sua essência
Calleja dizia que “Para servir, servir” — uma tautologia só aparente, que esconde uma verdade profunda: o verdadeiro líder é aquele que vive para servir.
Mesmo após o diagnóstico de câncer, ele continuou ensinando. Entre março e maio de 2020, gravou quatro conferências, em estágios avançados da doença. Faleceu em julho daquele ano, mas deixou como legado uma liderança vivida até o último suspiro.
Seis aprendizados indispensáveis para líderes
A partir da leitura dos diálogos e da convivência com Calleja, destaco seis ensinamentos essenciais para qualquer líder:
- Superar a mentalidade tecnocrática: a liderança exige mais do que técnica — exige prudência e julgamento político-moral (Diálogo 1).
- Buscar a estrutura adequada ao negócio: “Para cada SOP existe uma estrutura que é melhor que as outras”, afirmava ele com convicção (Diálogo 4).
- Praticar a colegialidade: o bom governo exige diálogo, não imposição — “dar razões, mais do que ter razão” (Diálogo 1 e 7).
- Valorizar a convivência profissional: clima saudável é tão importante quanto estratégia (Diálogo 5).
- Pensar no longo prazo: o diretor deve ser guardião do futuro da empresa (Diálogo 1 e 6).
- Não confundir sucesso com sustentabilidade: crescer exige prudência, recursos e estrutura — do contrário, o crescimento mata (Diálogo 3).
Um legado de sabedoria prática
A força dos “Diálogos” está na união entre profundidade conceitual e aplicação direta. Calleja combinava reflexão filosófica com exemplos vividos, e por isso tocava seus alunos e interlocutores de forma tão marcante.
Como explico no prólogo, ele foi “um sábio” — desses que escutam mais do que falam, e que, quando falam, dizem o essencial.
Um convite à reflexão
Este livro não é apenas sobre gestão. É um convite à reflexão sobre o sentido da liderança.
Ao final, como nos lembrava Calleja no sexto diálogo, existem três formas de ver a empresa:
- Como geradora de valor ao acionista;
- Como agente de responsabilidade social;
- Como comunidade de pessoas que trabalham juntas.
A verdadeira liderança, dizia ele, está em harmonizar essas três visões.
E assim, como ele concluiu em sua última conferência:
“Quem não vive para servir, não serve para viver.”



Wau muito interessante,o que li e muito obrigado por fazer parte.