A tão sonhada felicidade, o sentido do trabalho e o verdadeiro propósito das organizações

Por que há tanta desilusão e infelicidade com o trabalho quando há cada vez mais empresas declarando seu propósito e contribuição com a sociedade?

Em contato com empresários, CEOs e heads de Recursos Humanos tenho notado uma crescente preocupação com o aumento do número de casos de burnout, problemas de saúde mental, quiet ambition nas novas gerações, quiet quiting e um alerta com relação à forte tendência de mudança de comportamento profissional em que as pessoas não querem vínculo com as organizações; relacionam-se pessoalmente apenas o necessário ao mesmo tempo em que esperam das empresas generosas retribuições materiais no curto prazo com planos de carreira relâmpagos.

Trabalhar por uma causa está também em “alta”. Alguns, infelizmente a minoria, se jogam de cabeça e descobrem o verdadeiro sentido do trabalho com impacto social. Já outros buscam trabalhar por um propósito desde que não implique nenhum custo pessoal, desde que não peçam nada além do que foi combinado, do que está previsto no “job description” previamente acordado entre as partes, numa relação que cada dia mais se caracteriza como transacional e contratualista.

Algumas organizações, por sua vez, ao se depararem com essa realidade, rapidamente apresentam uma “caixa de ferramentas” embalada com um laço de fita vermelho na qual encontramos um EVP (employee value proposition), ou seja, a proposta de valor da organização para os seus funcionários de forma que possam vivenciar uma “jornada única e diferenciada” que possibilite um trabalho com propósito, aprendizado, crescimento, engajamento, dinheiro e, portanto, felicidade. Vejo também que se multiplicaram os cargos de executivos responsáveis por zelar pela felicidade dos funcionários.

As áreas de Recursos Humanos, em muitos casos,  passam então a gerir uma complexidade de iniciativas e práticas como oportunidades de formação e desenvolvimento por meio de programas de educação executiva, EAD, pílulas de conhecimento, experiências marcantes, mobilidade interna, expatriação; benefícios diversos e flexíveis; políticas que promovem a diversidade, a inclusão e a parentalidade; programas de saúde mental que se propõem proporcionar apoio e segurança psicológica aos funcionários e mais uma infinidade de soluções que têm por objetivo satisfazer as expectativas de seus colaboradores. A intenção é reduzir as patologias citadas e possibilitar maior produtividade e, consequentemente, o alcance dos resultados previamente comprometidos com os acionistas. Pronto. Tudo resolvido?

Arrisco dizer que estamos nos enganando. Buscamos soluções paliativas, imediatistas e superficiais para questões universais, existenciais, humanas e profundas. Ao atuarmos nos sintomas e não nas causas, gastamos energia, tempo, dinheiro e somos ineficientes. Seria presunção minha achar que tenho a solução ou esgotar a discussão em um artigo, no entanto, gostaria ao menos de propor um caminho de reflexão evidenciando as principais causas dos problemas mencionados.

A primeira diz respeito à relação das organizações com as pessoas. Enquanto as organizações olharem para as pessoas como meios para que elas possam atingir seus próprios fins e instrumentalizarem o ser humano para alcançarem seus objetivos econômicos, vamos enfrentar problemas sociais e humanos cada vez mais sérios. Ao contrário, acredito que as empresas deveriam ter as pessoas como fim, como uma das suas principais razões para existir. Ao colocarem as pessoas no centro da tomada de decisão, preocupadas com a sua dignidade, favorecendo o seu desenvolvimento e respeitando sua singularidade, teremos organizações mais humanas, espaços propícios para o florescimento e crescimento dos colaboradores. O resultado e crescimento da organização será então uma consequência natural da maturidade profissional e humana das suas pessoas.

A segunda causa que eu gostaria de salientar diz respeito ao conceito de felicidade da sociedade atual ancorado no status, no poder, nos prazeres, na opulência, nos bens materiais, nas infindáveis “experiências”, que me parecem distanciar as pessoas da sua razão de ser e fomentam competitividade no lugar de colaboração e individualidade no lugar de coletividade. Acredito que a felicidade reside no amor ao próximo, fazendo o bem, cuidando, doando tempo e energia para ajudar e desenvolver as pessoas e para construir uma sociedade melhor. Sim, implica um custo pessoal. A felicidade, por incrível que pareça, nos pede renúncia de si mesmo, algum sacrifício e muita resiliência. Viktor Frankl, em seu livro “O homem em busca de um sentido”, sintetiza que encontraremos sentido em nossas vidas e seremos felizes em três situações (1) amando incondicionalmente, (2) encontrando sentido para o próprio sofrimento ou (3) fazendo um trabalho que importa, um trabalho relevante.

Essa é a terceira causa que eu gostaria de discutir, o sentido do trabalho em nossas vidas. O trabalho bem-feito, realizado com profissionalismo e espírito de serviço, é um meio para a produção de bens e serviços que solucionam os problemas da sociedade, proporcionando bem-estar para as pessoas, gerando riqueza e desenvolvimento econômico. O trabalho possibilita o florescimento profissional e humano da pessoa que o realiza e permite o desenvolvimento das pessoas que estão no entorno. O trabalho nos permite pertencer a uma comunidade de pessoas que se juntam para realizar coisas que não seriam possíveis se estivéssemos sozinhos, crescer em virtudes e alcançar bens elevados como a amizade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, entre tantos outros. O trabalho nos faz livres! Não estamos enfrentando dilemas e patologias exatamente porque nos falta liberdade? Nos aprisionamos naquilo que entendemos por felicidade e, ao invés de viver e trabalhar com o coração, estamos psicologicamente doentes, sem esperança, acomodados porque aquilo que nos é oferecido não está imbuído de sentido, de um propósito genuíno que nos fará levantar todos os dias para trabalhar bem, certos de que podemos impactar as pessoas e a sociedade.

Questiono aqui quantas e quais empresas estão moldadas para que as pessoas encontrem sentido no trabalho que realizam todos os dias.  Será que as suas estruturas, suas políticas, sistemas de incentivos e modelos de liderança estão pensados a partir dessa perspectiva? Ou estamos falando em propósito e colaboração no nosso EVP, porém o “sistema” está montado para uma busca frenética por resultados de curto prazo com um modelo de gestão baseado em incentivos extrínsecos, em um ambiente altamente competitivo, que leva as organizações a transformarem a relação empresa-colaborador numa relação transacional e tóxica onde o trabalho se torna um peso que traz sofrimento e infelicidade para as pessoas?

É necessário rever os princípios e as premissas que fundamentaram o sistema organizacional vigente. Enquanto nos atermos às ferramentas, aos modelos, às melhores práticas, às experiências que proporcionamos às pessoas e não àquilo que é essencial, estaremos retrocedendo como sociedade.

Termino fazendo um convite à reflexão sobre o que realmente nos faz felizes e a verdadeira razão de existir das empresas. Aos corajosos, um convite à ação, se juntando a muitos que já fazem parte desse processo de transformação em que as pessoas estão no centro da tomada de decisão e as empresas configuradas para que as pessoas possam encontrar sentido no trabalho buscando a convergência entre o propósito pessoal e o propósito da organização. Estou segura de que as práticas de gestão serão mais simples, os EVPs coerentes com a realidade e as pessoas mais felizes, possibilitando que as empresas cumpram com sua missão na sociedade, gerando valor e construindo prosperidade.

Sobre
Flávia de Santis
Diretora Executiva do ISE Business School. Responde pela área de Pessoas & Organização e pela área de Programas Customizados. Doutoranda em Governo e Cultura das Organizações – Instituto de Empresa y Humanismo – Universidade de Navarra IBGC – Formação para Conselheiro de Administração (2019) Mestrado em Governo e Cultura das Organizações – Instituto de Empresa y Humanismo – Universidade de Navarra - 2018 PMD (Program for Management Development) IESE Business School – 2012 Escuela Europea de Coaching y Habilidades Directivas - 2009 MBA em Marketing de Serviços pela ESPM - 2005 Graduação em Administração Pública na EAESP-FGV (+ Saint Mary’s University – Canadá) Carreira Executiva em empresas como Atento, AT&T, Banco Santander e Promon. Atuação nas áreas de estratégia, pré-vendas, desenvolvimento e gestão de serviços, novos produtos, customer care e go to market.
Mostrando 3 comentários
  • João D. Mantoan
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    Flávia, parabéns pelo artigo e pela forma direta e sutil como foi abordado um tema tão importante e preocupante em todas as nossas organizações empresariais.

    Foi um verdadeiro convite à reflexão e ao desafio de mudar aquilo que já não cabe mais nos moldes do relacionamento humano atual.

    • FLÁVIA DE SANTIS
      Responder

      Obrigada João!

  • Monaliza Matanzas
    Responder

    Flávia,

    Excelente Artigo! Muito coerente e voltado para a cerne da questão.
    Queremos fórmulas mágicas, soluções prontas, mas temos o grande desafio de repensar o sistema e nos reconectarmos com o essencial, com o primordial.

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