Conversando sobre cultura organizacional com um grupo de altos executivos, um comenta: “acho extremamente importante o que estamos fazendo aqui: entrando em um consenso. Atualmente, temos recorrido muito à votação.” O que pode estar na raiz deste desconforto?
Uma votação certamente simplifica o processo de tomada de decisão. É rápida, objetiva, e – se bem formuladas as opções – evita a ambiguidade de interpretações do que foi realmente discutido e decidido. A, B ou C.
Já o consenso requer que pacifiquemos o que cada líder entende sobre a questão que está sendo levantada. Que sejam colocados exemplos que ajudem a enriquecer o olhar dos demais e que permitam a todos empatizar com as situações que contextualizam aquele posicionamento. Requer coragem para trazer os temas e exemplos pertinentes. Exige uma pré-disposição de todos de “não matar o mensageiro”. E muita determinação e disciplina para que o grupo chegue a uma decisão, para que não seja um processo moroso, interminável, inconclusivo.
Um ângulo do desconforto pode ser que não estejamos discernindo o lugar de um e de outro.
De uma maneira simples, a votação é útil para assuntos já pacificados e menos transcendentes, cujo impacto não coloca a prova um valor essencial da organização ou da equipe. Ou para aqueles grupos tão grandes, com interesses diversos, que seria impraticável uma alternativa. O consenso tem a oportunidade de trazer luz a vieses e a realidades por vezes mais “distantes” da organização ou do trabalho/atividade/projeto concreto.
Um outro ângulo é que não estejamos promovendo o ambiente de confiança que possibilita o consenso “de verdade”, aquele em que não “ganha” quem tem mais poder ou fala mais alto, que acaba por gerar descrença ou um “pensamento padronizado”, incapaz de incorporar novas informações ou dados críticos para o melhor direcionamento da questão levantada.
Fica a reflexão de cultivar a “coragem argumentativa” e a “empatia auditiva”, para fazer dos momentos em que nos sentamos para deliberar sobre um assunto, uma oportunidade de eleger o melhor instrumento e alinhar visões que pavimentam melhores decisões no futuro.

