Carlos Racca

Ano passado estive em uma pequena e encantadora cidade de Santa Catarina onde a praça principal era um autêntico arco-íris de cores. Havia também um labirinto.

Não resisti à curiosidade infantil, confesso, de andar pelo labirinto e me divertir. Na viagem de retorno para Gramado, onde me hospedava, enquanto minha mulher placidamente desfrutava a paisagem dormindo eu pensava em analogias. Mania de professor do ISE Business School.

E cheguei à conclusão de que havia muitas semelhanças com algo velho conhecido.
Um labirinto é uma forma geométrica desenhada de tal forma que quem está fora não enxerga o que está dentro e, melhor ainda, quem está dentro não enxerga o que está fora. Qual a semelhança?

Para se chegar ao centro há inúmeros caminhos, não há indicação por onde ir. Fica-se indo e voltando sem saber como ir adiante. Qual a semelhança?
Para se chegar ao centro, precisa-se passar por um longo caminho, quando o mais fácil seria seguir em linha reta de fora para dentro. Qual a semelhança?
E se você fica dando muitas voltas desiste e tenta resolver “no braço” atravessando as paredes, o que não é tarefa fácil. Ainda não descobriu a semelhança?
Talvez fosse um devaneio causado pela rara ocasião que estava relaxado e para não perder o costume pensava em coisas do trabalho.

Quem imaginou que estava eu falando das empresas, acertou!
Quantas empresas são um labirinto!
As pessoas estão sem saber para onde ir e aonde chegar. Não têm a mínima ideia de onde estão o início e o fim do seu trabalho.

A falta de processos claros é como um pedaço do labirinto que temos que percorrer. Lembre-se: o labirinto é circular, damos voltas e caímos no mesmo ponto. Não há indicações nem placas. Em linguagem de negócios, não há estratégia.
Não conseguimos fazer a voz do cliente chegar diretamente à empresa, o que significa ir direto de fora para dentro numa linha reta. Estamos sozinhos e sem orientação e vamos andando de um lado para o outro sem conseguir achar a saída. Não somos eficazes, ou seja, não somos diretos, nem eficientes, se não gastamos o mínimo de energia para chegar ao centro.
O que causa isso tudo?
As cercas entre um caminho e outro. Se elas não existissem, tudo seria mais fácil. De fato não haveria o labirinto.
Como criamos as cercas?
Penso que a nossa falta de preparo de enxergar o labirinto todo, em vez de enxergar só o nosso caminho, escureça a nossa visão.
Penso que a nossa falta de sentido de orientação, que seja a missão, nos deixa sem indicação para onde ir.
Penso que a nossa falta de planejar e de critérios nos deixe sem saber o que fazer quando estamos no meio do labirinto.

Penso que talvez a falta de processos não nos ajude a achar mais rapidamente e com maior velocidade (eficiência) o centro e a saída.

Penso que a nossa sede de manter o nosso “território” nos faça percorrer um caminho inviável para chegar ao centro.
Penso que a nossa falta de vontade em “pensar grande” e no labirinto nos faça ficar perdidos.
E aí pensei: é uma cidade pequena!! Talvez os labirintos também existam em empresas pequenas. E, lamentavelmente, a minha experiência diz que sim, existem.

E mais ainda, o labirinto era feito de uma cerca viva! Meus Deus, ele foi crescendo com o tempo!! Quantos labirintos estamos deixando crescer em nossas empresas?

A viagem terminou e eu pensei: acho que vou comprar uma tesoura de cortar sebes antes que cresçam, por que senão terei que usar serrotes, o que será trabalhoso e poderei me machucar e machucar os outros na poda.

Sobre
Carlos Racca
Professor do Departamento de Operações, Tecnologia e Informação e Professor de Empresa-Família. Senior Lecturer | IESE Business School Programas de Aperfeiçoamento em Direção de Empresas IESE Business School e IAE Graduação em Engenharia Elétrica Escola Politécnica da USP Carreira executiva como Diretor Geral | Reliance no Brasil Também atua como Diretor Acadêmico de Custom Programs do ISE Business School carlosracca@ise.org.br