Professor Cesar Bullara
Vivemos num mundo onde, para muitos, a ética se reduziu a um conjunto de obrigações e proibições que dizem respeito ao cumprimento de regras e normas.
Sendo assim, a ética poderia ser comparada a um muro de contenção, mais do que um alicerce sob o qual se apoia todo o edifício da sociedade e de cada um de seus membros. Sabemos que a função do muro de contenção é a de resistir a pressões enquanto que a função do alicerce é a de sustentar uma determinada estrutura.
Entender a ética através da figura do muro de contenção, significa falar de algo que, mesmo sendo necessário, tem uma natureza meramente instrumental, externa e não inerente à nossa própria vida. Ao contrário, se por ética entendemos o alicerce que permite o levantamento de toda uma construção, estaremos nos referindo a algo essencial, interno e intrínseco.
Dependendo da figura que ilustra o nosso conceito, teremos maneiras completamente diferentes de tratar os dilemas éticos.
A imagem do muro de contenção nos remete a um entendimento da ética como uma aplicação de normas, algo meramente “legalista”. Trata-se de ter regras e códigos de conduta. Por esse motivo, torna-se necessário criar mecanismos de controle ou barreiras que impeçam que a pressão exercida sobre a estrutura da sociedade e sobre cada indivíduo não provoque a sua ruína.
Não está em jogo o questionamento dos critérios de tomada de decisão e sua relação com uma linha de atuação, sobre a bondade ou o dever ser das decisões que tomamos. Ficamos mais tranquilos simplesmente obedecendo uma ordem ou seguindo O código.
Sendo assim, não é à toa que muitos torcem o nariz quando ouvem falar de ética. Segundo eles, essa palavra traz consigo tudo aquilo que sabemos não se pode fazer, mas que todo mundo faz.
Tal modo de pensar corresponde a uma visão de ética que tem a ver com parâmetros externos de comportamento. Algo que, em muitos casos, poderia ser comparado com o politicamente correto. Quer dizer, se existe a aprovação externa, tudo certo, tudo ok. Ainda que a ação que realizei seja em si mesma condenável, como não foi percebida por ninguém ou como não transcendeu o âmbito da minha consciência ou das quatro paredes da minha casa, continuo sendo um exemplo de cidadania e de honradez. Nada mais falso…..
Proponho que retomemos o conceito clássico de ética como a ciência do bem viver, ou seja, do bem pensar e do bem agir. Algo que diz respeito à nossa realização como pessoa, em todos os sentidos: na vida pessoal e social, familiar e profissional.
Não podemos esquecer que a sociedade é reflexo do que são cada um dos seus integrantes, com suas qualidades e defeitos, virtudes e vícios, luzes e sombras. É preciso ter a coragem de afirmar, em alto e bom som, que existem condutas que são más em si mesmas, em qualquer tempo e espaço, independentemente de qualquer contexto social. Essa é a verdade sobre o ser humano!
Determinadas condutas são boas ou más não porque estão descritas num código. A ética não é um muro de contenção, é o alicerce da vida de toda sociedade e de cada um de seus membros.
Cesar Bullara, Chefe do Departamento de Gestão de Pessoas do ISE Business School.

