A veracidade na empresa e nas relações interpessoais

Em 1987, a Bausch & Lomb, criadora da marca Ray-Ban, era surpreendida pela Johnson & Johnson, que lançava o Acuvue, a primeira lente de contato descartável. A ameaça de mercado era considerável, e levou a empresa a determinar o lançamento acelerado de suas próprias lentes descartáveis. A Bausch & Lomb decidiu “remodelar” as suas lentes de 1970 e vendê-las como descartáveis. As mesmas antigas lentes receberam novas marcas, SeeQuence 2 e Medalist, e passaram a ser vendidas como descartáveis, ao preço de US$7,50, quando o preço normal era de US$70,00 o par. A ação foi bem-sucedida como tática de marketing, contribuindo para o crescimento nos lucros.

A ação da empresa, ao comunicar ao mercado as suas “novas” lentes descartáveis, foi posteriormente motivo de muitas críticas, ainda que não faltasse quem alegasse que o consumidor não havia sofrido dano algum com o novo produto lançado.

Muitas vezes a manifestação de uma verdade pode ocasionar dificuldades ou prejuízos a uma empresa. Tal como ocorre nas relações entre as pessoas. São situações que reclamam uma qualidade moral, chamada classicamente de veracidade, que confere o discernimento e a capacidade de expressar a verdade tal como requerida nas diversas situações da vida profissional e pessoal.

O uso correto da palavra, transmitida de forma verbal ou por qualquer meio, é uma condição requerida pela convivência humana. Há um direito natural das pessoas de não serem enganadas. Quando a prática da mentira é estendida numa sociedade, nessa mesma medida a sociedade perde humanidade: desaparece a confiança natural, e a vida se deteriora em suspeitas, preocupações e precauções.

A virtude da veracidade combate a inclinação a ocultar ou deformar a verdade, motivada pelo interesse em obter uma vantagem ou evitar um inconveniente. Capacita a pessoa a viver de acordo com a verdade. Consiste no hábito de adequar o que se pensa ao que se diz e ao que se faz.

A falta dessa adequação nas palavras chama-se mentira; nos gestos, simulação; e em todo o comportamento, hipocrisia (Problemas Morais da Existência Humana, Rafael Gomez Perez). Sendo as palavras, naturalmente sinais das ideias, é antinatural e ilegítimo exprimirmos por palavras o que não temos na mente (Tomás de Aquino).

O mal moral da mentira está na atuação direta e consciente contra o que a pessoa sabe que é o verdadeiro. É atuar conscientemente contra a própria consciência. O primeiro prejudicado pelo ato imoral é sempre a própria pessoa que o pratica. Além desse dano, a mentira produz uma injustiça para com a pessoa enganada.

Toda corrupção na vida corporativa envolve algum tipo de mentira. O famoso caso da Enron mostra como através da arte da “contabilidade criativa” foi possível apresentar uma imagem gravemente falseada da realidade, levando a um escândalo de proporções gigantescas.

A gravidade da mentira se mede pela natureza da verdade que ela deforma, das circunstâncias, das intenções de quem mente e dos danos causados às pessoas afetadas. Muitas vezes a falta de veracidade se deve não a interesses escusos, mas simplesmente a falta de caráter para aceitar e conviver com uma verdade desagradável: somente os fortes são verazes.

Como afirmava Roberto Waack, presidente da fundação Renova, constituída para a recuperação dos danos causados pelo acidente da Samarco, faz parte da autenticidade reconhecer um erro que se cometeu: algo difícil no mundo corporativo, mas muito importante.

Nem sempre é correto, prudente e justo dizer o que se pensa ou o que se sabe. Considera-se lícito, em alguns casos, ocultar a verdade, sempre que não se incorra em falsidade. Todos têm direito de reserva sobre aspectos da vida pessoal que não impactam no bem comum, e poderiam causar danos a interesses legítimos. Por outro lado, não é lícito guardar segredo de algo que atenta contra o bem comum, que deve ser preferido ao privado. A ocultação da verdade é lícita somente quando exista uma causa grave proporcionada.

No mundo atual, super-fluido de imagens e mensagens lançadas ao ar nas redes sociais, muitas vezes anonimamente, há o perigo de perda da sensibilidade da verdade. Os fake news, a pequena e não pequena mentira com a finalidade de desmoralizar uma figura pública ou de atrair audiência. São formas modernas — na verdade, não tão modernas — de injustiça.

Por outro lado, há um movimento que pode ser positivo no resgate do apreço pela verdade. A digitalização está gerando mais transparência. Dizia Mark Zuckerberg: “Dando poder de compartilhar às pessoas, estamos fazendo o mundo mais transparente”.

Autenticidade é palavra-chave hoje, no mundo corporativo. Como dizia um alto executivo: Hoje, para parecer, é preciso ser. Não dá para esconder. Mas a virtude não está em ser autêntico porque é mais lucrativo, e sim porque é o certo, porque é o justo, e está de acordo com o respeito devido aos colaboradores e à sociedade em geral.

Jorge Mitsuru, Diretor Acadêmico e Professor do Departamento de Gestão de Pessoas do ISE Business School

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