Coerência e Duplicidade na Atuação do Executivo

Um Professor de uma Escola de Negócios, que havia sido deputado federal em seu país, comenta que os políticos corruptos que chegou a conhecer lhe haviam confidenciado que a vida tinha seguido o seu caminho, e que um dia de manhã, olhando bem para o espelho, frente a frente consigo mesmos, disseram a si mesmos: sou um corrupto! Não haviam decidido ser corruptos. Um belo dia se deram conta de que eram corruptos de verdade.

É a história também de muitos casos de escândalo no mundo corporativo. Em 2001, entrava em colapso a até então 7ª. maior empresa dos Estados Unidos, Enron. Andrew Fastow, ex-CFO da empresa, disse, depois de cumpridos 5 anos de prisão pelo famoso caso de corrupção:

Não pensei nas implicações éticas do que eu fazia. Só percebi quando meu filho de 15 anos veio me visitar na prisão.

 O depoimento era uma entrevista concedida via videoconferência a autoridades canadenses. Em um momento da sua fala, Fastow mostrou numa das mãos o prêmio de CFO do ano que havia recebido uma vez, e na outra, a sua identificação de presidiário. E se perguntava como os dois comportamentos poderiam ter saído da mesma pessoa.

Uma das explicações que deu era de que não tinha parado para se perguntar se as decisões que estava tomando eram éticas. Eu não trabalhava numa sala escura cercado de pessoas sinistras se perguntando como vamos violar a lei. Achava que o que estávamos fazendo era uma grande coisa. Éramos grandes cientistas descobrindo os meandros da lei, as brechas da lei. Fastow considerava-se o Chief Loophole Officer da empresa. Somente na prisão se deu conta de que havia feito algo errado.

Vários fatores certamente contribuíram para esse tipo de comportamento de Fastow. Ele mesmo reconhecia, nessa entrevista, que o não se ter perguntado sobre as implicações éticas do que estava fazendo era uma falha de caráter, da qual se envergonhava.

O caráter é certamente uma das principais raízes do comportamento ético. Um fator externo à pessoa, não pequeno, é o papel da alta liderança da empresa. No caso da Enron, os membros do board não estavam exatamente preocupados com a dimensão ética do que faziam. O que perguntavam a Fastow era:“é permitido fazer isso?”. A lei permite?

Esta última fala sugere um fator muito relevante nos tempos atuais, que afeta a estrutura interna do comportamento ético das pessoas. A dissociação entre os valores pessoais e o comportamento externo, que veio se impondo na cultura ocidental, sobretudo em alguns países, num movimento iniciado há vários séculos.

Hanna Arendt (1906—1975) filósofa política alemã de origem judaica, muito influente no século XX, teve oportunidade de acompanhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, responsável pelo envio de milhares de judeus para a câmara de gás. Perguntava-se Hanna, perplexa, como uma pessoa aparentemente normal e comum podia ter cometido os crimes que cometeu sem sentimentos de culpa ou remorso.

Uma explicação para esse fenômeno é a apresentada pelo Professor Rafael Ruiz, em seu livro Alienação e Intolerância. Nele, desenvolve a tese de que o que entendemos hoje por “cultura ocidental”, está marcado fortemente pela tensão e dicotomia entre o público e o privado, a consciência privada e a lei pública. O processo, cujo início se poderia apontar por volta do século XV, teve profundos desdobramentos, e seus efeitos são muito visíveis na sociedade atual.

O advento da modernidade, caracterizado pela grande evolução das ciências, da técnica e do progresso da civilização em geral, distinguiu duas importantes regiões culturais, ao darem diferentes respostas a esses novos desafios. O mundo anglo-saxão optou por buscar e organizar a vida em sociedade a partir da “certeza objetiva” do comportamento externo das pessoas, para obter a “certeza” de cumprimento ou não de valores e regras de vida. O mundo ibérico optou pela “certeza subjetiva”, aquela que cada sujeito em sua consciência pessoal possui ao tomar suas decisões e atuar na sociedade.

 Pelo mundo saxão, tiveram grande peso nesse processo, pensadores como Thomas Hobbes (1588—1679) e John Locke (1632—1704). Hobbes acreditava que a causa da instabilidade dos Estados era o fato de que cada cidadão pudesse seguir a sua própria consciência, o que poderia levar à guerra de todos contra todos, cada um querendo impor a sua própria opinião sobre os outros.

Locke, pensador empirista como Hobbes, afirmava que todo conhecimento procede da experiência, e apenas da experiência. Essa postura negava a metafísica, que é necessária para que o conhecimento intelectual alcance objetivamente verdades universais a partir da experiência. Sem a metafísica, os valores éticos, por exemplo, não passam de elementos do mundo subjetivo, relegáveis, desprovidos de valor objetivo para a ciência.

Hobbes e Locke propuseram que os cidadãos renunciassem seguir a sua consciência na vida pública e civil, procurando pautar-se apenas pela Lei Civil, que passaria a ser entendida como a “consciência pública[1]”.

O mundo anglo-saxão avançou com a separação entre o ético e o público, ao passo que o mundo ibérico os manteve unidos, seguindo a tradição clássica e medieval. No mundo ibérico, evoluíram esforços para formar a consciência individual das pessoas para que fossem súditos autônomos do Estado.

Para Hobbes existia uma clara cisão entre o âmbito interno e externo da atuação da pessoa. Com isso, separou dois conceitos que estavam unidos em Aristóteles, para quem somente as pessoas boas, justas e prudentes poderiam praticar atos bons, justos e prudentes. Dessa forma, para que uma sentença fosse justa, era necessário que o juiz fosse justo e tivesse sabedoria prática, que lhe permitisse “enxergar” e dizer o que era justo, juris-dicção. Isso foi assim até o final do século XVIII. A partir de então, pela evolução ocorrida, a lei deveria falar sozinha e por si mesma.

A influência da evolução do mundo anglo-saxão se percebe hoje, como assinala Rafael Ruiz. É comum que políticos, em temas polêmicos, digam que pensam de uma forma, mas, que, publicamente votem e ajam de outra.

É a lei assumindo o papel da consciência na vida pública. Por outro lado, no mundo ibérico, a lei, para gerar uma obrigação de consciência ao súdito, precisava ser justa e de acordo com a lei natural.

Adolf Eichmann não se perturbou com o que fazia, porque pensava estar cumprindo ordens de Estado, praticando “virtudes cidadãs”. Abdicou de sua consciência pessoal, alienou-se do questionamento ético, o que, por si só, acabou reduzindo-o a uma dignidade infra-humana.

No escândalo da Enron acreditava-se que não contrariar frontalmente a letra da lei era garantia de que se podia fazer, de que não havia nada errado. Reflexo também de uma alienação da consciência pessoal, que deu início a um processo levemente errado no começo, mas gravemente antiético no final.

Com a alienação da consciência individual, facilmente se passa a justificar “racionalmente” o comportamento errado; e se torna aceitável e até meritório o que é uma deturpação da verdade. A verdade e a coerência passam a ser substituídas pela conveniência e pela astúcia.

Como melhorar o ambiente ético nas organizações e no setor público? Ações que visem melhorar os aspectos formais de governança corporativa e compliance, criação de comitês de ética, etc., são certamente positivas e necessárias, mas insuficientes, como atestado pela própria experiência internacional e nacional.

É preciso resgatar a unidade entre a consciência moral e o comportamento pessoal. A raiz do comportamento ético está no discernimento sobre o que é certo e melhor a ser feito em cada situação, aliado à força e capacidade de levá-lo à prática. Requer sabedoria prática e força de caráter. A sabedoria prática constitui a luz ética sobre o agir humano, cujas escolhas edificam o caráter da pessoa. Ninguém nasce com caráter: são as ações livres, coerentes com o que a pessoa discerne como o certo, constroem o caráter.

Não basta que os comportamentos não violem as leis e as regras, é preciso que as pessoas se movam espontaneamente pelo bem: pessoas que, em quaisquer circunstâncias, independentemente de serem ou não observadas, busquem sempre e livremente o que é certo, justo e bom, para si mesmos e para as outras pessoas e a sociedade.

Mas essa espontaneidade deve ser construída. Chama-se mais propriamente conaturalidade com o bem: uma convivência próxima com o que é bom, que leva a reconhecê-lo com a inteligência e a apreciá-lo, buscá-lo, num processo em que a vontade se move não por caprichos ou motivações automáticas, mas pela luz da razão. É esta que, movida pela sabedoria prática diz: “devo querer isto”; e “não posso querer isto, se quero aquilo”.

E assim, depois de muito praticar esse agir ilustrado, se chega à conaturalidade com o que é bom, e então espontaneamente quereremos o que é bom.

É na estrutura interna do agir humano que residem a coerência e a integridade da pessoa. São as fissuras e lacunas nesse âmbito que explicam a proliferação de surpresas negativas no comportamento dos executivos. Pessoas que começaram com um pequeno passo em falso e gradativamente passaram a incorrer em atos claramente inconfessáveis, cada vez mais graves. E um belo dia se surpreenderam concluindo que eram corruptos.

[1] Alienação e Intolerância: um diagnóstico sobre os tempos modernos. Rafael Ruiz, Cultor de Livros, 2018, p. 25.

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