A rejeição da inovação

Mesmo para quem não é da área de saúde, como é o meu caso, já deve ter ouvido falar sobre o ‘Sistema Imune’ que nos protege contra microrganismos, toxinas e células cancerosas. Sua responsabilidade é distinguir entre o que é “normal” e o que é “estranho”, protegendo nosso corpo e garantindo nossa saúde.  Ao mesmo tempo em que este sistema é fundamental para garantir a nossa sobrevivência, ele se torna um problema quando precisamos receber o transplante de um órgão. O sistema imune percebe aquele novo órgão como uma ameaça ao funcionamento normal de suas funções gerais e começa a rejeitá-lo.

Isso é exatamente o que acontece com a maioria das iniciativas de inovação dentro das empresas estabelecidas. Elas são rejeitadas pela organização existente pelo mesmo motivo que o corpo humano rejeita um órgão transplantado. As estruturas, processos e sistemas internos não reconhecem aquela iniciativa como algo “normal”.

Qual é o funcionamento “normal” da sua organização? A resposta é óbvia. Aquele que aumenta a eficiência e diminui a variabilidade dos resultados (essa última sendo a própria origem do termo “normal”). Sua organização, com o tempo, deve ter acumulado um monte de regras, explícitas e implícitas, de como as coisas funcionam e como os resultados são atingidos. Dependendo da perspectiva teórica, do livro ou mesmo do guru que consultarmos, a explicação para esse “modus operandi” poderá ser chamada de “aprendizagem organizacional” (Peter Senge), “cultura organizacional” (Edgar Schein), “fórmula de resultado” (Clayton Christensen), “estratégia realizada” (Henry Mintzberg), entre outras. Na verdade, todos eles estão certos. Dentro das organizações existe uma grande força e estímulo à conformidade. As pessoas são estimuladas e premiadas por mecanismos de retroalimentação, que reforçam os comportamentos que funcionam e diminuem o erro. Premiam a eficiência e a redução dos erros.

Mesmo quando a liderança da organização declara a necessidade estratégica que as inovações representam, isso faz com que os times internos até entendam essa intenção, mas a incapacidade de traduzir essas declarações em estruturas, processos e políticas acabam por empurrá-los para os resultados “que funcionam”, mesmo que isso represente somente um sucesso de curto prazo. É o sistema imune cumprindo seu papel de “normalidade”.

Ricardo Engelbert é professor do Depto. de Sistemas de Informação e Empreendedorismo

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